E S T U D A R N  O  U M AT O D E C O N S U M I R I D  I A S ,   MAS DE CRI-LAS E RECRI-LAS.

                                                                                         PAU L O F R E I R E
  FUNDAO BANCO DO BRASIL
                     Presidente
       Jacques de Oliveira Pena

             Diretor Executivo de
          Desenvolvimento Social
  Almir Paraca Cristvo Cardoso

              Diretor de Cincia &         Coordenao Geral
              Tecnologia & Cultura         Mercado Cultural
                 Luis Fumio Iwata
                                           Coordenao de Produo
                     Assessoras            Flvia Diab
      Carmem dos Santos Arajo
      Maria Helena Langoni Stein           Coordenao de Administrao
                                           Clo Assis
                      PETROBRAS
                        Presidente         Texto
              Jos Sergio Gabrielli        Carlos Rodrigues Brando

             Gerente Executivo de          Consultoria
         Comunicao Institucional         Alpio Casali, ngela Antunes, Jason Mafra,
                Wilson Santarosa           Jos Eustquio Romo, Lisete Arelaro,
                                           Moacir Gadotti, Paulo Roberto Padilha, Ricardo Hasche,
Gerente de Comunicao Nacional            Snia Couto, Vera Barreto
             Luis Fernando Nery
                                           Legendas
                   Coordenadores           Ulysses Cosenza
                       Janice Dias
           Lenart Nascimento Filho         Curadoria
                                           Ana Maria Arajo Freire,
         INSTITUTO PAULO FREIRE            Instituto Paulo Freire, Lutgardes Costa Freire
                    Diretor Geral
                   Moacir Gadotti          Produo
                                           Nomia Inohan
             Diretores Pedaggicos
                   ngela Antunes          Reviso de Textos
             Paulo Roberto Padilha         Beatriz di Paoli

                        Diretora de        Imagens (Acervos)
            Relaes Institucionais        Ana Maria Arajo Freire, Instituto Paulo Freire,
             Salete Valesan Camba          Lutgardes Costa Freire, Madalena Freire, Ftima Freire

                    Coordenadores          Projeto Grfico
                      Jason Mafra          Lula Ricardi - XYZdesign
                       Snia Couto
                                           Assistncia de Arte
                                           Saulo Flores

                                           Desenho de Paulo Freire, adaptado de
                                           ilustrao criada por Claudius Ceccon.




              Brando, Carlos Rodrigues.
 B817p        Paulo Freire, educar para transformar: fotobiografia / Carlos
            Rodrigues Brando. So Paulo: Mercado Cultural, 2005.
              140 p.

               ISBN 85-98757-03-9
               Projeto Memria "Paulo Freire - educar para transformar"

              1. Educao 2. Freire, Paulo - Biografia - Obras ilustradas 3. Freire,
            Paulo - Vida e obra - Fotografia I. Ttulo

                                               CDD 21.ed. 370.92
Paulo Freire  um dos mais importantes educadores do sculo XX e um dos mais
expressivos pensadores do nosso tempo.
Nascido em 19 de setembro de 1921,  o criador de uma autntica teoria do conhecimento e
autor de cerca de 40 obras, traduzidas em mais de 20 idiomas.
A infncia pobre, no Recife, nordeste brasileiro, foi o contato primeiro com uma realidade
que se tornou cenrio para sua inovadora prtica educacional.
Ainda menino, aprendeu a escrever  sombra das mangueiras, no quintal da casa, com os
pais. Foi no contato permanente com trabalhadores  quando diretor do SESI recifense  e,
tambm, nos movimentos populares das dcadas de 1950 e 1960, que buscou a inspirao
para formular suas concepes, especialmente para a elaborao de seu mtodo de
alfabetizao e educao de adultos.
A Fundao Banco do Brasil e a Petrobras (por meio do Programa Petrobras Fome Zero), em
parceria com o Instituto Paulo Freire, desenvolveram, no Projeto Memria 2005, a possibilidade
de acesso de brasileiros e brasileiras  trajetria de mais um ilustre compatriota.
Paulo Freire dedicou-se  causa das classes oprimidas, especialmente por meio da alfabetizao,
concebendo-a e aplicando-a como instrumento de conscientizao e libertao.
Este livro fotobiogrfico, que ser distribudo para seis mil bibliotecas de todo o pas, 
resultado de um intenso e amplo trabalho de pesquisa coletiva, que buscou, nos textos,
documentos, ilustraes e testemunhos, os episdios mais relevantes da vida e da obra
desse grande nordestino, cidado do mundo.
Esta homenagem a Paulo Freire  a expresso de um compromisso com a justia, a democracia
e a humanizao. Para a Fundao Banco do Brasil, a Petrobras e o Instituto Paulo Freire,
, alm disso, uma oportunidade para registrar e divulgar um legado expressivo de nossa
cultura, na perspectiva de estimular outros brasileiros a escrever pginas importantes de
nossa histria.
A partir de agora, prezado leitor, adentre o universo de Paulo Freire, no apenas para apreci-
lo  porque ele apresenta muitos aspectos para a fruio esttica , mas tente perceber nele
as referncias para a construo de um mundo no qual seja mais fcil amar, j que o mundo
no , est sendo, como dizia o prprio Paulo Freire. Boa leitura.




                   INSTITUTO PAULO FREIRE | PETROBRAS | FUNDAO BANCO DO BRASIL
                                                      ndice


  1. Paulo Freire 13
2. Um menino do Nordeste  sombra das mangueiras 23
    3. O professor Paulo Freire: os comeos de uma carreira 29
4. Os cenrios dos tempos da criao da educao como prtica da liberdade 37
        5. Recife, Nordeste, Brasil 47
     6. Ler palavras e ler o mundo: o mtodo de alfabetizao Paulo Freire 53
         7. Os anos do exlio: a pedagogia do oprimido 67
8. O retorno de um educador sem fronteiras 81
         9. Educar com o amor, educar para amar a vida 95
  10. Andarilho da utopia e semeador da esperana 101
      11. A herana de Paulo Freire 109
    12. O que ler para conhecer mais a vida e as idias de Paulo Freire 113
Cronologia Bsica 116
                                                                                                                                                          PAU L O
F R E I R E

                              N I N G U  M L I B E R TA N I N G U  M , N I N G U  M S E L I B E R TA   S O Z I N H O : O S H O M E N S S E L I B E R TA M E M
C O M U N H  O .





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
PROJETO MEMRIA | 2005




                         10
11
                                                      1. Paulo
                                                                                         Freire




                                                                                                                       PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                    Paulo Freire  um pensador e educador brasileiro. Ele viveu a sua vida, aqui no
No sou apenas objeto da Histria   Brasil e em outros pases do mundo, entre o comeo dos anos 20 e o quase final
mas seu sujeito igualmente. No      dos anos 90 do sculo XX. Entre ns, poucas pessoas marcaram tanto as idias e
mundo da Histria, da cultura,      os ideais desses anos todos quanto esse homem que dedicou a sua vida e o seu
da poltica, constato no para me   trabalho  formao de crianas, de jovens e de adultos por meio da educao.
adaptar mas para mudar.


Pedagogia da indignao, 2000




                                                                                                                      13
                                                                                Entre os ttulos que
                                                                                recebeu, esto os de
                                                                                Doutor Honoris Causa
                                                                                em Universidades de
                                                                                vrios pases, como
                                                                                Inglaterra, Blgica e                                                         Recebeu
prmios,
                                                                                Estados Unidos.                                                       medalhas, condecoraes
                                                                                                                                                          e ttulos
em todos os

continentes.

                                                          Em Bruxelas,
                                                    recebendo o Prmio
                                                          Rei Balduino.

                                                                                                                             Durante boa parte dos anos dos governos
militares no Brasil, os seus livros foram proibi-
                                                                                                                             dos, as suas idias foram consideradas
perigosas e o seu prprio nome foi impedido de
                                    Recebendo o
                                 ttulo de Doutor                                                                            ser pronunciado em nossas escolas e
universidades. No entanto, ao longo desse mesmo
                                Honoris Causa na                                                                             tempo sombrio, e depois dele, poucos
brasileiros receberam tantas homenagens e tan-
                                   Universidade
                                                                                                                             tos ttulos aqui e fora do Brasil. Ao
professor Paulo Freire foi concedido o ttulo de
                                    Complutense
                                    de Madri, em                                                                             Doutor Honoris Causa por quase quarenta
universidades do Brasil e de outros pases.
                              dezembro de 1991.                                                                              De Sul a Norte de nosso pas, mais de
trs centenas de escolas pblicas e particulares
                                       Em baixo,
                                                                                                                             tm o seu nome.
                               doutoramento na
                                         Blgica.




                                                                                                        Com Mrio Covas,
                                                                                                        no recebimento





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                        do Prmio Moinho
                                                                                                        Santista, em 1995.

                                                                          Recebendo, na
                                                                          Cmara Municipal
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                          de So Paulo, o
                                                                          Ttulo Cidado
                                                                          Paulistano, em 1986.




                         14
15
                                                                             Prmio Unesco de
                                                                              Educao para a
                                                                                    Paz, 1986.
                                                               Pensadores e    Com Frei Betto,                                                     Freire com o educador
Com o tambm
                                                      intelectuais debatem     telogo, escritor e                                                      e companheiro
de          educador e escritor
                                                      e vivenciam as idias    educador popular,                                                     idias Myles
Horton.         Ivan Illich, em
                                                            de Paulo Freire.   cujo trabalho
Genebra, 1971.
                                                        Acima, com o amigo     se referencia na
                                                              e antroplogo    concepo freireana.
                                                             Darcy Ribeiro.



                              Seus livros seguem sendo re-editados, ano aps ano, em portugus e em inmeras               culo XX1. Existem vrios centros e institutos
"Paulo Freire" espalhados por vrios pases
                              outras lnguas. Eis um exemplo. Um de seus ltimos trabalhos tem este nome: Peda-            e comprometidos com o aprofundamento e
a difuso de suas idias e da educao popu-
                              gogia da autonomia  saberes necessrios  prtica educativa. O livro foi publicado em       lar. E as propostas concretas de Paulo
Freire para uma educao humanista libertadora





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                              1996. Em 2005, ele chegou  sua 31 edio, com mais de seiscentos e cinqenta mil           seguem sendo a matria-prima e o fundamento
de trabalho pedaggico de inmeros
                              exemplares vendidos.                                                                         educadores e instituies pedaggicas.
                              Pensadores, filsofos, cientistas, artistas, lderes religiosos, educadores e militantes     Paulo Freire sonhou, criou e colocou em
prtica uma verdadeira teoria da educao,
                              de movimentos sociais e populares conhecem, debatem e aplicam as idias contidas             propondo um trabalho que passa pela educao
escolar formal, mas que vai bem alm
PROJETO MEMRIA | 2005




                              nos seus trabalhos. As suas teorias, as reflexes e prxis at hoje esto presentes em       dela. Algo que, em verdade, vale como
um programa de uma plena e profunda formao
                              debates que vo da educao at as questes ambientais e os problemas do destino             humana, em que o sentido e o valor da
prpria educao foram muito alargados.
                              da Terra e da Vida.                                                                          Uma boa imagem dele seria a do homem que,
olhando a escola, v a pessoa humana.
                              Dentro e fora de universidades de todo o mundo, as suas propostas pedaggicas seguem         Vendo a pessoa, vislumbra o seu mundo.
E, vendo o seu mundo social tal como ele ,
                              sendo o fundamento do trabalho de inmeros educadores e centros de educao. E so           imagina o melhor dos mundos para todas
e todos ns.
                              tambm temas de incontveis artigos cientficos, livros pedaggicos, teses e simpsios
                              de estudos sobre a pessoa, a sociedade e a educao.
                              Contam-se s centenas as dissertaes acadmicas, em vrias lnguas, sobre suas idias        Uma relao bastante criativa e completa
de trabalhos de e sobre suas idias pode ser encontrada nas pginas
                                                                                                                           de Paulo Freire  uma biobibliografia,
coordenado por Moacir Gadotti e outras pessoas, editado por meio de par-
                         16   e trabalhos. A bibliografia de estudos brasileiros e internacionais a respeito da "obra de
17
                                                                                                                           ceria entre o Instituto Paulo Freire,
a Editora Cortez e a UNESCO. Em sua primeira edio, o livro foi publicado
                              Paulo Freire"  uma das mais amplas, dentre as que foram dedicadas a educadores do s-       em So Paulo, no ano de 1996.
                         Escolas, institutos,
                                  bibliotecas,
                           ctedras, centros,
                         ncleos de estudos
                                 e pesquisas,                                                 Centro de Educao Paulo Freire
                           espaos culturais                                                  em Huelva, na Espanha.
                              e tantas outras
                             instituies que
                         levam seu nome no       Centro de Educao de Adultos
                          Brasil e no mundo.               em Mlaga, Espanha.




                                                   Escola Paulo Freire no Rio de Janeiro.




                                                                                                                                                          Na Sucia,
existe uma praa na capital,
                                                                                                                                                          Estocolmo,
onde esto esculpidos, em al-





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                                          gumas esttuas
bem modernas, o rosto
                                                                                                                                                          e o corpo
de alguns homens e mulheres
                                                                                                                                                          cujas palavras,
idias e aes foram de
                                                                                                                                                          uma grande
relevncia para a construo
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                                                          de um mundo
humano mais justo e livre.
                                                                                                                                          Paulo Freire
                                                                                                                                     esculpido (2 da
                                                                                                                                                          Pois uma
dessas esttuas retrata Paulo
                                                                                                                                     esquerda para a      Freire.
Eis uma pequena mostra do reco-
                                                                                                                                      direita), ao lado   nhecimento
internacional dado a esse edu-
                                                                                                                                    de Pablo Neruda,
                                                                                                                                        Mao Ts-Tung
                                                                                                                                                          cador pernambucano,
que se tornou em
                                                                                                                                             e outros.    poucos
anos um "homem do mundo".



                         18
19

                                                                                 Centro Educativo Paulo Freire em Arequipa, Peru.
                              Tendo sido a vida inteira um pensador da condio humana e do que a educao pode          Paulo Freire concebeu uma educao que,
da criana ao adulto, desenvolvesse na pessoa
                              fazer para nos formar e libertar, ele pensou tambm uma nova tica, uma nova teoria do     que aprende algo mais do que apenas algumas
habilidades instrumentais, como saber
                              conhecimento e at mesmo uma nova esttica, pois, em suas idias, o saber, a virtude, a    ler e escrever palavras, ao lado de algumas
habilitaes funcionais dirigidas ao simples
                              liberdade, a solidariedade, a beleza e a vocao humana ao amor e  felicidade constitu-   exerccio do trabalho, como o saber usar
as palavras aprendidas para ser um pedreiro,
                              am momentos de um mesmo todo.                                                             um contador, um advogado ou um professor.
                              Sendo um pedagogo  um homem que pensa e pratica a educao  ele foi tambm um            Ao imaginar uma educao libertadora, como
ele a batizou, pensou em um trabalho
                              original criador de idias novas sobre a pessoa humana e o drama de sua existncia em      pedaggico com um profundo e largo sentido
humano. Um ofcio de ensinar-e-aprender





1 Seminrio

Nacional de

Alfabetizao,

Monte Mrio,

Repblica

Democrtica

de So Tom e

Prncipe, 1976.




                                                                            Trabalho educacional em
                                                                             Monte Mrio, Repblica





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                     Democrtica de
                                                                                So Tom e Prncipe.
                                                                              O poder transformador
                                                                             da educao e a anlise
                                                                                   crtica do mundo.
PROJETO MEMRIA | 2005




                              tempos to contraditrios e difceis. Sendo o inventor de um mtodo de alfabetizao,      destinado a desenvolver em cada educando
uma mente reflexiva, uma amorosa sensibili-
                              ele foi tambm o criador de uma nova e revolucionria pedagogia. Como um terico da        dade, um crtico senso tico e uma criativa
vontade de presena e participao da pessoa
                              educao, ele a levou at os seus mais inesperados limites e nunca deixou de associar      educada na transformao de seu mundo.
                              pedagogia e poltica.                                                                      Quem foi esse homem, cujo nome completo
 Paulo Reglus Neves Freire? Onde nasceu
                              E por que "poltica"? Porque ele sempre considerou que uma das tarefas da pessoa que       e como viveu os anos da infncia e da juventude?
Como ele foi educado e se formou?
                              educa  formar pessoas para que elas se reconheam co-responsveis na construo e         Como comeou e deu seqncia  sua vida
de educador? O que ele pensou, criou e
                              na transformao de suas vidas, das vidas dos outros com quem convivem e das socie-        escreveu, para tornar-se um nome de referncia
entre as pessoas mais inovadoras e
                         20   dades onde todas e todos ns vivemos nossas vidas e escrevemos com as prprias mos        essenciais de nossos tempos?
21
                              os nossos destinos.
                                                           2.                   Um Menino do
                                                                              Nordeste  Sombra
                                                                       das Mangueiras

A retomada da infncia distante,




                                                                                                                              PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
buscando a compreenso do meu ato
de `ler' o mundo particular em que           Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, no bairro de Casa Amarela, no
me movia (...), me  absolutamente           Recife, capital do estado de Pernambuco. Uma primeira grande guerra mundial
significativa. Neste esforo a que me        havia acabado poucos anos antes. No seria a ltima. Antes de ele concluir os
vou entregando, recrio, e revivo, no texto   seus estudos e de ingressar na vida profissional, uma outra iria comear.
que escrevo, a experincia vivida no
momento em que ainda no lia a palavra.


A Importncia do ato de ler, 1982


                                                                                                                             23
Ainda pequeno,
   Paulo Freire
 aprendeu a ler
    e a escrever
   sombra das
mangueiras no
  quintal desta
      casa onde
         nasceu.




                                                                                                                    Trechos do "livro
                                                                                                                    do beb" de Paulinho.
                                                                                                                    O relato de
                                                                                                                    suas primeiras




                                                                                                                                                 PAULO FREIRE | EDUCAR
PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                    experincias.

                                    O pai, Joaquim
                                Temstocles Freire,
                                            e a me,
  PROJETO MEMRIA | 2005




                                  Dona Edeltrudes,
                                      com os quais
                                      iniciou-se na
                                        leitura e na
                                   escrita. Ao lado,
                                  Paulo Freire com
                                    1 ano de idade.    Foi um dos quatro filhos de um pai oficial da polcia militar e de uma me bordadeira.
                                                       Viveu a infncia e a juventude em uma famlia no propriamente pobre ao extremo, mas
                                                       "de poucas posses", como era costume dizer-se ento. Desde cedo viveu o desejo de
                                                       aprender. Antes de ir para a escola, comeou a se alfabetizar em casa, com a ajuda de
                           24                          sua me. Quando ele sentou pela primeira vez em um banco de sala de aula, j quase       25
                                                       sabia ler e escrever.
                                                                                                                                                 Como acontecia com
muitos meninos de seu tempo, Paulo Freire iniciou os seus estudos
                                                                                                                                                 numa pequena escola
na casa da prpria professora. Eunice Vasconcelos era o seu nome
                                                                                                                                                 e, mais tarde, ele
dedicou doces pginas de lembranas a ela. Com 10 anos de idade,
      Paulo Freire, o                                                                                                                            mudou-se com a famlia
para a cidade de Jaboato, ao lado de Recife.
menor, junto com os                                                                                                                              Perdeu o pai quando
tinha treze anos. As condies financeiras da famlia agravaram-se;
irmos Temstocles,
                                                                                                                                                 esse foi um outro
motivo pelo qual ele se atrasou em seus estudos do "curso primrio"
Stela e Armando, na
    dcada de 1920.                                                                                                                              e, apenas aos dezesseis
anos, ingressou no "curso ginasial".





Eu fiz a escola primria exatamente no perodo

mais duro da fome. No da "fome" intensa, mas de

uma fome suficiente para atrapalhar o aprendiza-

do. Quando terminei meu exame de admisso, era

alto, grande, anguloso, usava calas curtas, por-

que minha me no tinha condies de comprar
                                  A imagem de um menino do comeo do sculo XX aprendendo a ler e a escrever com
calas compridas. E as calas curtas, enormes,
                                  rabiscos de gravetos sobre a terra dos fundos de um quintal ser uma lembrana da vida
sublinhavam a altura do adolescente. Eu consegui
                                  inteira. Anos mais tarde, quando ele j era ento um "cidado do mundo",  ao quintal
fazer, Deus sabe como, o primeiro ano do gin-
                                  da casa, s suas rvores e a outros seres vivos de sua infncia que ele se voltaria nas
sio com 16 anos. Idade com que meus colegas de
                                  primeiras pginas de um livro que comea com algumas carinhosas lembranas da me-
gerao, cujos pais tinham dinheiro, j estavam
                                  ninice e da adolescncia. Um livro que no por acaso recebeu este carinhoso nome: 
entrando na faculdade. Fiz esse primeiro ano de
                                  sombra desta mangueira.
ginsio num desses colgios privados, em Recife:

em Jaboato s havia escola primria. Mas minha

me no tinha condies de continuar pagando
                                      Aquele quintal foi a minha imediata objetividade. Foi o meu primeiro no-eu





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR

a mensalidade e, ento, foi uma verdadeira ma-
                                      geogrfico, pois os meus no-eus pessoais foram meus pais, minha irm,
ratona para conseguir o colgio que me recebes-
                                      meus irmos, minha av, minhas tias e Dad, uma bem-amada me negra
se com bolsa de estudos. Finalmente encontrou
                                      que, menina ainda, se juntara  famlia nos fins do sculo passado. Foi com
o Colgio Osvaldo Cruz e o dono desse colgio,
                                      esses diferentes no-eus que eu me constitu como eu. Eu fazedor de coi-
    PROJETO MEMRIA | 2005





Aluzio Arajo, que fora antes seminarista, casa-
                                      sas, eu pensante, eu falante.
do com uma senhora extraordinria, a quem eu
                                      ...
quero um imenso bem, resolveu atender o pedido
                                      Em certos momentos, a amorosidade pelo nosso quintal se estende a ou-
de minha me. Eu me lembro que ela chegou em
                                      tros e termina por se alojar numa rea maior a que nos filiamos e em que
casa radiante e disse: "Olha, a nica exigncia que
                                      deitamos razes, a nossa cidade.
o Dr. Aluzio fez  que voc fosse estudioso".
                                      Antes de tornar-me um cidado do mundo, fui e sou um cidado do Recife,
Paulo ainda menino.
                                      a que cheguei a partir do meu quintal, no bairro de Casa Amarela.


                             26
27
                                   FREIRE, Paulo.  sombra desta mangueira. So Paulo: Editora Olho d'gua, 1995, pp. 24-5. Grifos do prprio    Esse depoimento
foi publicado originalmente na revista Ensaio, n. 14, de 1985, p. 5.
                                  autor.
                                             3.O Professor Paulo Freire:
                                                    os Comeos de
                                                           uma Carreira.

Gosto de ser gente porque a




                                                                                                                   PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                               Quando era ainda um estudante de escola, o menino Paulo iria comear a des-
Histria em que me fao com
                               cobrir uma das "paixes" que o acompanhariam por toda a vida: a palavra, o
os outros e de cuja feitura
                               seu valor, seus segredos, seus mistrios. Entre os anos da adolescncia e os da
tomo parte  um tempo de
                               juventude, dedicou-se por conta prpria a estudos de filologia e de filosofia da
possibilidades e no de
                               linguagem. Antes mesmo de completar o seu curso na Faculdade de Direito do
determinismos.
                               Recife, Paulo Freire j lecionava Lngua Portuguesa. Anos mais tarde, ele demar-
                               cou assim o perodo da descoberta de seu desejo de tornar-se um educador:
Pedagogia da autonomia, 1997




                                                                                                                  29
                                  Em algum momento, entre os 15 e os 23 anos, descobri o ensino como
                                  minha paixo.4
                                  Antes de mais nada, devo dizer que ser um professor tornou-se uma
                                  realidade, para mim, depois que comecei a lecionar. Tornou-se uma
                                  vocao, para mim, depois que comecei a faz-lo. Comecei a dar au-
                                  las muito jovem,  claro, para conseguir dinheiro, um meio de vida;
                                  mas quando comecei a lecionar, criei dentro de mim a vocao para
                                  ser um professor.
                                  Eu ensinava gramtica portuguesa, mas comecei a amar a beleza da
                                  linguagem. Nunca perdi essa vocao.
                                  ...
                                  Ensinando, descobri que era capaz de ensinar e que gostava muito
                                  disso. Comecei a sonhar cada vez mais em ser um professor. Apren-                                                   Em 1947, Paulo
Freire
                                  di como ensinar, na medida em que mais amava ensinar e mais es-                                                     formou-se em
Direito,
                                                                                                                                                      mas logo abandonaria
                                  tudava a respeito.5
                                                                                                                                                            a profisso,
que
                                                                                                                                                  praticamente no
chegou
                                                                                                                                                    a exercer. A
paixo pela
                                                                                                                                                       educao o
conduziu
                                                                                                                                                   para defender
tese para
                                                                                                                                                     a Cadeira de
Histria e
                                                                                                                                                  Filosofia da Educao,
na
                                                                                                                                                   Escola de Belas
Artes de
                                                                                                                                                               Pernambuco.
                                                                                                                                                          Tese que
seria seu
                                                                                                                                                             primeiro
livro.





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PROJETO MEMRIA | 2005




                                                            No Colgio Osvaldo                                                                   Aos vinte e dois
anos de idade, Paulo ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Depois
                                                          Cruz, no Recife, como
                                                                                                                                                 de formado, ele
praticamente no exerceu a profisso de advogado. A educao, a escola
                                                            bolsista, conseguiu
                                                          concluir seus estudos                                                                  e a sala de aula
o chamariam cedo e para toda a vida.
                                                                    secundrios.                                                                 Em 1944 Paulo Freire
casou-se com Elza Maia Costa de Oliveira, com quem teve cinco
                                                            Na dcada de 1940,
                                                                                                                                                 filhos: Maria Madalena,
Maria Cristina, Maria de Ftima, Joaquim e Lutgardes. As filhas
                                                               retornaria, agora,
                                                              como professor de                                                                  seguiram a vocao
dos pais, tornando-se professoras. Elza era tambm professora e,
                                                             lngua portuguesa.                                                                  vrias vezes, entre
conversas, conferncias e por escrito, Paulo fazia referncia  amo-
                                                                                                                                                 rosa e lcida presena
dela em sua vida e em suas idias. Viveram quarenta e dois anos
                              4
                                FREIRE, Paulo & FREI BETTO (CHRISTO, Carlos Alberto Libanio). Essa escola chamada vida. So Paulo: Editora
                         30   tica, 1985, p. 8.                                                                                                 de casamento, entre
Recife, Braslia, as cidades dos pases do exlio e, aps o retorno,    31
                              5
                                Esse depoimento est no livro Medo e ousadia: o cotidiano do professor, publicado pela Editora Paz e Terra, em
                              1987, pgina 38, em que Paulo Freire conversa com o professor norte-americano Ira Shor.                            So Paulo.
                                                 Em 1944,
                                                 Paulo Freire casa-se
                                                 com a professora
                                                 primria Elza Maia
                                                 Costa de Oliveira,
                                                 aquela que se
                                                 tornaria a me
                                                 dos seus filhos, a
                                                 companheira de luta
                                                 comprometida com o
                                                 trabalho libertador.


                                                                        Abril de 1969,
                                                                        Cambridge, Estados
                                                                                                      Com Elza, Paulo
                                                                        Unidos. Paulo Freire,
                                                                                                        viveu 42 anos,
                                                                        Elza e os filhos
                                                                                                   uma vida de amor,
                                                                        Joaquim e Lutgardes,
                                                                                                dilogo, generosidade
                                                                        durante o exlio.
                                                                                                      e cumplicidade.
                                                                                                    Ela foi sua grande
                                                                                                         encorajadora
                                                                                                       nas discusses
                                                                                                          pedaggicas.


                                                                                                                         Paulo Freire
                                                                                                                         e Elza em
                                                                                                                         famlia: filhos,
                                                                                                                         filhas, noras,
                                                                                                                         genros e netos.




                                                                                                                                      PAULO FREIRE | EDUCAR PARA
TRANSFORMAR
                                    Freire (
                              direita) e Elza,
                               reunidos com
                                grande parte
                              da sua famlia,
PROJETO MEMRIA | 2005




                                    em 1957.




                         32                                                                                                        33
                                                           Desde jovem,
                                                           Paulo Freire envolveu-se
                                                           na defesa dos direitos
                                                           dos trabalhadores,
                                                           atuando nos
                                                           movimentos populares
                                                           e como diretor do SESI.



                              Durante dezessete anos ele trabalhou no Setor de Educao do SESI do Recife. Partindo
                              de suas prprias vivncias como um estudante em boa medida autodidata, como um
                              participante da Ao Catlica e como um educador j ento inteiramente aberto s novas
                              tendncias pedaggicas do ps-guerra, Paulo Freire dedicou-se a um intenso trabalho de

Durante discurso
                              formao de educadores de crianas e de criao de crculos de dilogos entre professo-
no SESI, na dcada
                              res e pais de alunos. Uma pedagogia centrada no pleno respeito ao outro, no dilogo e na
de 1950, perodo em
                              participao ativa de todos os educandos comeava a nascer ali.
que conheceu de

perto a realidade e
Paulo Freire,
as necessidades do
  ao centro,
adulto trabalhador
   com uma
analfabeto. Base
   turma de
para sua concepo
 formandos
pedaggica
    do SESI.
transformadora.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                         Quando Paulo Freire deixou o SESI, o Brasil
e o mundo comeavam a viver uma srie
                                                                                                                         de mudanas econmicas e polticas cujos
efeitos sobre a vida social e sobre a educa-
                                                                                                                         o desafiaram cientistas sociais, educadores
e militantes de causas populares a buscar
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                         novas respostas. A experincia do trabalho
no SESI do Recife representou uma fecunda
                                                                                                                         iniciao  vida de educador. Em pouco tempo,
ela seria bastante amadurecida, pois,
                                                                                                                         desde as primeiras experincias pedaggicas,
Paulo e sua equipe adotaram um progra-
                                                                                                                         ma de vivncias e de trabalho que os acompanharia
por toda a vida. Em que consistia
                                                                                                                         ele? Na integrao entre uma exigente e
contnua busca de conhecimentos, mediante
                                                                                                                         um persistente estudo nunca limitado apenas
ao campo da educao, e uma prtica
                                                                                                                         pedaggica ousada e inovadora colocada a
servio do povo, desde os primeiros tempos.
                                                                                                                         Todo o estudo de teorias pedaggicas desaguava
em experincias de educao. Todas as
                                                                                                                         experincias partiam de um contnuo esforo
de leitura crtica da realidade social. Todas
                         34                                                                                              as "leituras da realidade" deveriam ser
vividas em meio a uma participao to estreita           35
                                                                                                                         quanto possvel na vida cotidiana dos educandos
do povo.
                                                   4.Os Cenrios dos Tempos
                                           da Criao da Educao
                                               como Prtica da Liberdade.



Para a concepo crtica, o          Que tempos da vida e da histria eram aqueles? O que se vivia ento? De que




                                                                                                                       PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
analfabetismo nem  uma              maneira eles marcaram a vida e as idias de Paulo Freire?
'chaga', nem uma `erva daninha'      O tempo de histria que acompanha a vida profissional de Paulo Freire, que vai
a ser erradicada (...) mas uma       da segunda metade dos anos quarenta aos anos oitenta, caracterizou uma era
das expresses concretas de          que comea logo aps o trmino da Segunda Guerra Mundial e vai at o "esfa-
uma realidade social injusta.        celamento do chamado socialismo realista", como lembra Paulo, um educador
                                     que afirmou sempre a sua escolha por um socialismo humanista, opo pessoal
                                     e poltica que o acompanhou a vida inteira.
Ao cultural para liberdade, 1976




                                                                                                                      37
                                                                                                                          sa humana, em todo o mundo. Tanto se fez
e tanto se conquistou sobre uma natureza
                                                                                                                          prxima de seu esgotamento; no entanto,
convivemos com um mundo que destina a 2/3
                                                                                                                          da humanidade menos de 1/3 de todas as
riquezas produzidas no planeta. E os dados de
                                                                                                                          instituies como a Organizao das Naes
Unidas apontam para um agravamento das
                                                                                                                          desigualdades entre pessoas, classes e
povos do mundo inteiro.
                                                                                                                          Quando j na aurora dos anos noventa Paulo
Freire se volta sobre o mundo ao seu redor,
                                                                                                                          ao desafiar as "excelncias" alardeadas
pelos defensores do capitalismo, entre afirma-
                                                                                                                          es e perguntas, eis o que ele escreve
em seu livro Pedagogia da esperana:



           Guache do
     artista plstico
      pernambucano                                                                                                                                   Me sinto absolutamente
em paz ao entender que o esface-
            Francisco                                                                                                                                lamento do chamado
"socialismo realista" no significa, de
           Brennand,
                                                                                                                                                     um lado, que
foi o socialismo mesmo que se revelou invi-
         ilustrando a
        discusso do                                                                                                                                 vel; de outro,
que o capitalismo se afirmou definitivamente
  conceito de cultura                                                                                                                                na sua excelncia.
     nos Crculos de                                                                                                                                 Que excelncia
 essa que consegue "conviver com mais
             Cultura.
                                                                                                                                                     de um bilho
de habitantes do mundo em desenvolvimento
                                                                                                                                                     que vivem na
pobreza", para no falar, na misria. Para no
                                                                                                                                                     falar tambm
na quase indiferena com que convive com
                                                                                                                                                     bolses de pobreza
e "bolsos" de misria no seu prprio
                              De um lado, assistimos ao aumento do poder econmico e militar dos dois grandes                                        corpo, o desenvolvido.
Que excelncia  essa, que dorme
                              blocos em que o mundo inteiro se viu dividido: o do capitalismo comandado pelos Esta-                                  em paz com a
presena de um sem-nmero de homens e
                              dos Unidos da Amrica do Norte e o do socialismo e da promessa de um novo mundo,                                       mulheres cujo
lar  a rua, e deles e delas ainda se diz que
                              liderado pela Unio das Repblicas Socialistas Soviticas. Sado de uma grande guerra,





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                                      culpa de na
rua estarem. Que excelncia  essa que pou-
                              o mundo mergulharia na "Guerra Fria" e em inmeros conflitos armados de dimenso                                       co ou quase
nada luta contra as discriminaes de sexo,
                              local ou regional.                                                                                                     de classe, de
raa, como se negar o diferente, humilh-lo,
                              Ao contrrio das promessas de "progresso e desenvolvimento", o que houve foi um au-                                    ofend-lo, menosprez-lo,
explor-lo fosse um direito dos
PROJETO MEMRIA | 2005




                              mento das desigualdades entre classes sociais nas naes do "Terceiro Mundo" e, so-                                    indivduos ou
das classes, ou das raas, ou de um sexo
                              bretudo, entre povos, pases e mesmo continentes, quando tudo poderia sugerir uma                                      em posio de
poder sobre o outro. Que excelncia  essa
                              reduo significativa da misria e da desigualdade, em um mundo sacudido por novas e                                   que registra
nas estatsticas, mornamente, os milhes de
                                                                                                                                                     crianas que
chegam ao mundo e no ficam, quando fi-
                              contnuas descobertas cientficas e inovaes tecnolgicas.
                                                                                                                                                     cam, partem
cedo, ainda crianas e, se mais resistentes,
                              Espervamos "virar o sculo e o milnio" livres da guerra, da fome, da doena, do analfa-
                                                                                                                                                     conseguem permanecer,
logo do mundo se despedem?6
                              betismo, dos sistemas polticos repressivos, das injustias e das excluses sociais. Con-
                              vivemos com tudo isso e, bem mais agora do que anos antes, sabemos que podemos
                              estar caminhando para um irreversvel processo de esgotamento de recursos no-re-
                         38   novveis e de destruio das condies de reproduo da vida no planeta Terra. Todos
39
                              esses eram dados e fatos que chamavam a ateno de estudiosos e de militantes da cau-
                                                                                                                          6
                                                                                                                           FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperana:
um reencontro com a pedagogia do oprimido. 10 edio. So Paulo: Edi-
                                                                                                                          tora Paz e Terra, 1992, pp. 94-5.
                                                                                                                                                             A partir
do convvio com as
                                                                                                                                                              camadas
populares, Paulo
                                                                                                                                                               Freire
retirou a base para

conceber o seu mtodo
                                                                                                                                                                de
alfabetizao. Abaixo,
                                       Tambm aqui no Brasil aqueles foram os difceis anos de idas e vindas  procura de uma                                solenidade
no SESI, Recife,
                                       democracia nunca plenamente realizada e to comprometida durante os longos anos da
na dcada de 1950.
                                       ditadura militar. E tambm tempos de planos e programas visando a um desenvolvimen-
                                       to social e econmico sempre distante das metas que, de governo a governo, iam sendo
                                       estabelecidas, postas em marcha e, depois, esquecidas.
                                       Os anos do ps-guerra foram tambm os de um novo processo de industrializao, acom-
                                       panhado da justa conquista de direitos trabalhistas, no governo de Getlio Vargas. Com
                                       mais nfase e melhores resultados do que em governos anteriores, vivemos os anos das
                                       arrancadas "desenvolvimentistas" do governo de Juscelino Kubitschek. A "marcha para
                                       o Oeste", a construo de Braslia, o xodo rural e o crescimento desordenado das cida-
                                       des. As reformas estruturais de base, a comear pela reforma agrria, at agora nunca
                                       plenamente realizadas. Os anos de mudanas, de esperanas e inseguranas dos gover-
                                       nos de Jnio Quadros e Jango Goulart. Depois, do meio para o final dos anos sessenta e
                                       por mais quase duas dcadas, os anos de fogo dos regimes militares.


                         Em meio  ebulio poltica da
                           poca, Paulo Freire desponta
                                como referncia para a
                         educao popular. Discursa no
                                         SESI em 1949.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                 Em uma outra direo, vivemos ento
tempos que foram tambm de transformaes so-
                                                                                                                                 ciais e polticas da maior importncia.
Os anos da descolonizao e do surgimento de no-
                                                                                                                                 vas naes livres, sobretudo na
sia e na frica. Novos pases e novas alianas surgiam
                                                                                                                                 em um mundo que, por toda a parte,
oscilava entre movimentos de libertao e regimes
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                                                                                                                                 ditatoriais e militares, entre a
emancipao de naes e de grupos humanos e a submis-
                                                                                                                                 so de outros ao autoritarismo de
poderes despticos, nacionais ou estrangeiros.
                                                                                                                                 Lderes populares e movimentos revolucionrios
e emancipatrios brotavam principal-
                                                                                                                                 mente na Amrica Latina, na sia
e na frica. A presena de seus feitos e de suas idias
                                                                                                                                 teve sempre um peso decisivo em
tudo o que se comeou a fazer no Brasil entre as fren-
                                                                                                                                 tes populares de lutas, os movimentos
sociais ento nascentes e um amplo e fecundo
                                                                                                                                 novo movimento de ao pedaggica,
que veio a ter o nome de Movimento de Cultura
                                                                                                                                 Popular. Foi nele que Paulo Freire,
um de seus criadores e, possivelmente, a sua mais
                         40                                                                                                      importante referncia, encontrou
o lugar social de realizao de suas primeiras experi-    41
                                                                                                                                 ncias de educao popular.
                              Cerca de trinta anos mais tarde, ao comentar os tempos em que criava os fundamentos
                              de sua educao libertadora e escrevia, j no exlio, o seu livro Pedagogia do oprimido,
                              Paulo Freire descreveu assim aqueles anos:




                                     O livro apareceu numa fase histrica cheia de intensa inquietao. Os movi-
                                     mentos sociais na Europa, nos Estados Unidos, na Amrica Latina, em cada
                                     tempo-espao com suas caractersticas prprias. A luta contra a discrimina-
                                     o sexual, racial, cultural, de classe, a luta em defesa do ambiente, os Verdes,
                                     na Europa. Os golpes de Estado com a nova face, na Amrica Latina, e seus
                                     governos militares que se alongaram da dcada anterior. Os golpes de Estado
A convico

religiosa sempre
                                     agora ideologicamente fundados, e todos eles ligados de uma ou de outra maneira

esteve presente
                                     ao carro-chefe do Norte, na busca de viabilizar o que lhe parecia dever ser
em Paulo Freire.
                                     o destino capitalista do continente. As guerrilhas na Amrica Latina; as comu-
Teoria e prtica
                                     nidades de base, os movimentos de libertao na frica, a independncia das
que influenciaram

idias e aes. Ao
                                     ex-colnias portuguesas, a luta na Nambia, Amlcar Cabral, Julius Nyerere,

lado, com D. Paulo
                                     sua liderana na frica e sua repercusso fora da frica. A China. Mao. A Revo-
Evaristo Arns.
                                     luo Cultural. A extenso viva do significado de maio de 1968. As lutas poltico-
                                     sindicais e pedaggico-sindicais, todas obviamente polticas, sobretudo na Itlia.
                                     Guevara assassinado na dcada anterior e sua presena como smbolo no ape-
                                     nas para os movimentos revolucionrios latino-americanos, mas tambm para
                                     lideranas e ativistas progressistas do mundo todo. A Guerra do Vietn e a reao
                                     no interior dos Estados Unidos. A luta pelos direitos civis e o transbordamento
                                     do clima poltico-cultural dos anos 60, naquele pas, para a dcada de 70.7
                                                                                                                                                As pedagogias





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                                                                                                                                               de Paulo Freire
                                                                                                                                                    remetem 
                                                                                                                                                    libertao
                              Esse era o clima poltico e cultural em que Paulo Freire viveu o brotar e o amadurecer de
                                                                                                                                               como forma de
                              suas idias e experincias de militncia pedaggica. Diante dele e de seus companheiros,
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                                                                                                                                               enfrentamento
                              abriam-se as portas e desenhavam-se os caminhos de uma poca histrica marcada por                                 de mltiplas
                                                                                                                                                    realidades
                              novas e contestadoras alternativas de organizao de frentes de luta e de mobilizao de
                                                                                                                                                  opressoras.
                              causas populares. Aqui e ali eram gerados ou recriados sindicatos, ligas camponesas,
                              partidos polticos e outros movimentos sociais do campo e da cidade. A prpria Igreja
                              Catlica abria-se  "questo social" e propiciava o surgimento de uma ampla frente de
                              militncia de seus participantes mais preocupados com o compromisso do cristo com a
                              justia social. Eles se reuniram na Ao Catlica, cuja influncia sobre Paulo Freire no

                         42   7
                               FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperana: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 10 edio. So Paulo: Edi-

43
                              tora Paz e Terra, 1992, p. 121.
                              foi pequena, e tambm em movimentos sociais de educao popular. E em todos eles as
                              idias de Paulo Freire foram acolhidas com entusiasmo e desde cedo adotadas e postas
                              em prtica.
                              Diversas frentes de lutas buscavam criar novas alternativas para as causas popula-
                              res. Elas estiveram inicialmente centradas em movimentos de trabalhadores rurais e
                              urbanos, como as ligas camponesas e os sindicatos. Anos mais tarde, distriburam-se
                              tambm entre outros vrios movimentos sociais, como os dos povos indgenas, dos
                              negros, das lutas pelos direitos das mulheres e das outras vrias minorias esquecidas
                              e maiorias silenciadas.
                              Na contramo dos que anunciavam os anos do ps-guerra como o tempo propcio ao
                              "desenvolvimento econmico", quase sempre em nome dos interesses de governos au-
                              tocrticos ou de empresas estrangeiras, Paulo Freire desde logo aliou-se aos intelectuais,
                              polticos, educadores, artistas e militantes populares que defendiam algo alm de um
                              simples "desenvolvimento" sem as mudanas radicais nas estruturas polticas e econ-
                              micas que de dcada a dcada reproduziam uma mesma conjuntura social de injustia,
Pouco antes do Golpe
                              excluso e desigualdade.
Militar de 1964, o educador

francs Pierre Furter (acima
                              Ele aliou-se aos pensadores e militantes que consideravam ter chegado o momento de

e ao lado) visita o Brasil
                              uma transformao radical da sociedade brasileira. Em alguns de seus primeiros escri-
para estudar o Mtodo Paulo
                              tos, Paulo Freire identifica esse perodo como um "tempo de trnsito". Um tempo que
Freire de Alfabetizao.
                              exige do educador a descoberta e a adeso no apenas a novos mtodos de trabalho, mas
                              a novos temas que pensem de uma outra maneira os velhos problemas e que, de uma
                              maneira crtica e criativa, fundamentem o trabalho do educador.
                                                                                                                                        No terreno da educao, por
toda parte surgiam, dialogavam e se enfrentavam novas
                                                                                                                                        teorias pedaggicas. E novos
mtodos de trabalho desafiavam a criao de outras peda-





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                                                        Nutrindo-se de mudanas, o tempo de trnsito  mais do que sim-                 gogias, algumas apenas reformistas
e outras, revolucionrias. Estas ltimas abriam-se,
                                                        ples mudana. Ele implica realmente nesta marcha acelerada que faz              pouco a pouco, a experincias
radicais  experincias que partem das razes da vida e de
                                                        a sociedade  procura de novos temas e de novas tarefas. E se todo              seus dilemas. Elas no queriam
se contentar com pequenas inovaes didticas de sala
                                                        o trnsito  mudana, nem toda mudana  trnsito. As mudanas
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                                                                                                                                        de aula. No se conformavam
em limitar o alcance do saber e da educao aos limites
                                                        se processam numa mesma unidade de tempo histrico qualitativa-
                                                                                                                                        dos muros da escola. Aspiravam
abrir a escola  comunidade, abrir a comunidade ao
                                                        mente invarivel, sem afet-lo profundamente... Quando porm esses
                                                                                                                                        movimento social, e abrir
o movimento social s justas frentes de lutas populares.
                                                        temas iniciam o seu esvaziamento e comeam a perder significao e
                                                                                                                                        Na primeira linha das experincias
de educao popular surgidas ento, a educao
                                                        novos temas emergem,  sinal de que a sociedade comea a passagem
                                                                                                                                        libertadora de Paulo Freire
destacava-se de todas as outras, pois ela se voltava a uma
                                                        para outra poca. Nestas fases, repita-se, mais do que nunca, se faz
                                                        indispensvel a integrao do homem. Sua capacidade de aprender o               vivncia do ensinar-e-aprender
a partir de uma integrao entre a dimenso cultural do
                                                        mistrio das mudanas, sem o que ser um simples joguete.8                      trabalho do educador, a sua
vocao social e a sua responsabilidade poltica.
                                                                                                                                        Em vrios estados do Brasil,
educadores populares aliavam-se a cientistas sociais, a mi-
                                                                                                                                        litantes polticos, a artistas
e a representantes dos grupos e movimentos populares, em
                         44
45
                                                                                                                                        unidades de ao cultural
que tomariam o nome de Movimentos de Cultura Popular.
                              8
                                  FREIRE, Paulo. Educao como prtica da liberdade. 11 edio. So Paulo: Paz e Terra, 1980, p. 46.
                                             5.
                                                             Recife,
                                                          Nordeste,
                                                                                     Brasil.
A conscincia do mundo e a
conscincia de si como ser
inacabado necessariamente
inscrevem o ser consciente




                                                                                                                    PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
de sua inconcluso num
                               Desde 1960 Paulo Freire estar  frente de toda essa intensa efervescncia de
permanente movimento de
                               invenes, de inovaes e de transgresses justas e urgentes. "Educar", "cons-
busca (...).
                               cientizar", "criar", "inovar", "inventar", "mudar", "transformar", "transgredir",
                               "revolucionar", "humanizar" sero alguns entre os tantos verbos de sua vida.
Pedagogia da autonomia, 1997




                                                                                                                   47
                                                                                                                                       A aprovao da tese Educao
e
                                                                                                                                  Atualidade Brasileira (ao lado)
levou
                                                                                                                                Freire ao posto de Professor de Ensino
                                 Como outros verdadeiros lderes de idias e de aes de seu tempo, ele no se limita a                Superior, nvel 17, da cadeira
de
                                                                                                                                  Histria e Filosofia da Educao,
da
                                 criar mtodos didticos para o trabalho do educador. Ele forma e participa ativamente         Faculdade de Filosofia da Universidade
                                 de grupos, de equipes e de unidades de trabalho pedaggico. Participa  frente de inicia-            do Recife, em novembro de 1960.
                                 tivas populares e funda com uma centena de outros intelectuais, militantes, estudantes,
                                 sacerdotes e artistas o Movimento de Cultura Popular, no Recife. Dada a importncia dos
                                 trabalhos das equipes coordenadas por Paulo Freire no Nordeste, em todo esse proces-
                                 so, celebrou-se no Recife, em 1963, o Primeiro Encontro Nacional de Cultura Popular.
                                 Paulo Freire estar presente nos trabalhos pioneiros de uma alfabetizao conscienti-
                                 zadora, a partir do mtodo que ele criou, juntamente com outros educadores e outras
                                 educadoras de sua primeira equipe no Nordeste.




          Com
trabalhadores
em um Crculo
   de Cultura,
    durante a
experincia de
      Angicos,
      em 1963.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
   PROJETO MEMRIA | 2005





Convite para posse de livre
                                 Aliando como sempre o estudo terico, a construo solidria de idias e o pr em pr-
docncia (ao lado) e Declarao
                                 tica as suas idias, ao longo dos anos sessenta, o professor Paulo comeou a escrever
da Universidade do Recife

(acima), de dezembro de 1964,
                                 os seus primeiros livros e artigos. Suas idias depressa se difundiam por todo o Brasil.

dando conta da "aposentadoria"
                                 Em 1959, ele escreveu e apresentou o seu primeiro trabalho sobre a educao brasilei-
do Professor Paulo Freire, por
                                 ra: Educao e atualidade brasileira. Concorre com ele  cadeira de Histria e Filosofia da
Decreto Federal.
                            48
49
                                 Educao junto  Escola de Belas Artes do Recife.
                              Desde os primeiros anos de docncia, o professor Paulo relutou em transformar-se em
                              um docente de sala de aula e em um pesquisador especialista em temas acadmicos. A
                              universidade ser sempre em sua vida um laboratrio de experincias de educao po-
                              pular. Em 1961, foi nomeado professor de Histria e Filosofia da Educao da Faculdade
                              de Filosofia, Cincias e Letras da Universidade do Recife, aps lhe ter sido conferido o
                              certificado de Livre-Docente pela Escola de Belas Artes, da mesma universidade. Em
                              1962 criou o Servio de Extenso Cultural da Universidade do Recife e foi nomeado                             Paulo Freire em
                              seu primeiro diretor. No ano seguinte, em 1963, quando a Lei de Diretrizes e Bases da                     ilustrao do amigo
                                                                                                                                           Claudius Ceccon.
                              Educao Nacional criou os Conselhos Estaduais de Educao, ele foi indicado pelo go-
                              vernador Miguel Arraes, por ser um educador progressista, como um dos "conselheiros
                              pioneiros" do Conselho Estadual de Educao de Pernambuco.




                                                                                                                         Desde os seus primeiros escritos, Paulo
Freire deixava entre militantes e educadores a
                                                                                                                         sua marca. E ela no estava contida apenas
na novidade de suas idias e na criatividade
                                                                                                                         de suas prticas pedaggicas. Ela estava,
em primeiro lugar, em sua prpria presena. O
                                                                                                                         olhar sereno, o corpo todo voltado com carinho
e ateno a quem estava diante dele, o
                                                                                                                         ouvido atento de quem sabia primeiro ouvir
e, depois, dizer a sua palavra. E a carinhosa
                                                                                                                         e, ao mesmo tempo, sempre lcida e crtica
palavra de um educador que por toda a vida





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                                                                                                                         disse e repetiu que ningum educa ningum,
mas tambm ningum se educa sozinho,
                                                                                                                         pois o tempo todo somos educadores-educandos
e educandos-educadores de ns mes-
                                                                                                                         mos e de nossos outros.
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                                                         Encontros e                                                     A quem conviveu com ele ou mesmo a quem
leu as suas obras, Paulo deixou o teste-
                                             movimentos populares,                                                       munho de uma vida de aes e de idias dedicadas
a difundir no apenas teorias, mas,
                                                  no final da dcada                                                     entre elas e por meio delas, um ideal. O
acreditar na pessoa humana e no que pessoas
                                                  de 1950, levaram 
                                                                                                                         como voc e eu podem fazer quando, juntas,
resolvem estudar, pensar e compreender
                                                       realizao do
                                                        II Congresso                                                     de maneira consciente a sociedade em que
vivem. E quando, juntas, participam de ma-
                                             Brasileiro de Educao                                                      neira ativa e partilhada de sua transformao.
                                               de Adultos. O mtodo                                                      Paulo sabia bem que por conta prpria a
educao no muda o mundo. A educao
                                                      Paulo Freire de
                                                                                                                         muda as pessoas. As pessoas mudam o mundo.
                                               Alfabetizao estava
                                              em plena construo.
                         50
51
                                                 6.
                                        Ler Palavras e Ler o Mundo:
                                          o Mtodo de Alfabetizao
                                               Paulo Freire.

                                    O "Mtodo" obedece s normas metodolgicas e lingsticas, mas, desde o princpio dos
No basta saber ler que Eva viu a
                                    anos 60, Paulo Freire e sua primeira equipe de educadores nordestinos trabalhavam na
uva.  preciso compreender qual




                                                                                                                              PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                    criao de um novo sistema de trabalho na alfabetizao e na educao continuada de
a posio que Eva ocupa no seu
                                    jovens e de adultos. Eles sabiam que os velhos modelos de alfabetizao, baseados em
contexto social, quem trabalha
para produzir a uva e quem lucra    cartilhas e em trazer para o mundo do adulto formas de trabalho didtico com crianas,

com esse trabalho.                  em nada correspondiam s idias de uma educao libertadora. Formar pessoas educa-
                                    das e conscientes exigia uma outra compreenso do processo ensino-aprendizagem do
                                    educador-alfabetizador para o educando-alfabetizando. Assim, ainda em 1958, apresen-
                                    tou os seus primeiros esboos do que viria a ser o novo "mtodo de alfabetizao", em
Educao na cidade, 1991
                                    um Seminrio Regional realizado no Recife.




                                                                                                                             53
                              Em 1962, o governador do Rio Grande do Norte convidou Paulo Freire e sua equipe para
                              aplicar o mtodo de alfabetizao recm-criado em uma regio do serto do Nordeste.
                              A pequena cidade de Angicos foi escolhida e ali, ao redor de um primeiro "Crculo de
                              Cultura", eles viveram com entusiasmo uma experincia pioneira de alfabetizao de
                              trabalhadores rurais iletrados, jovens e adultos. Os primeiros resultados foram muito
                              animadores. Antes dessa, uma outra experincia-piloto havia sido realizada em Recife.
                              Paulo Freire comentou desta maneira o que viveu em Angicos:




                                                                    Aceitas pelo Sr. Governador do Estado as nossas
                                                                    exigncias para realizarmos a primeira etapa do
                                                                    sistema  a de no interferncia partidria, a da
                                                                    independncia tcnica, de fazermos uma educa-
                                                                    o que se voltasse para a libertao do povo,
                                                                    para a sua emancipao interna e externa , ini-
                                                                    ciamos a preparao das equipes que atuariam
                                                                    em Angicos e em Natal.
                                                                    Trezentos homens eram alfabetizados em Angi-
                                                                    cos em menos de 40 horas. No s alfabetiza-
                                                                    dos. Trezentos homens se conscientizavam e se
                                                                    alfabetizavam em Angicos. Trezentos homens
                                                                    aprendiam a ler e a escrever, e discutiam proble-
                                                                    mas brasileiros.9                                                                     Crculo
de Cultura,
                                                                                                                                                      durante experincia
em





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                                       Angicos, em
1963, onde
                                                                                                                                                     Paulo Freire
coordenou o
                                                                                                                                                    processo de alfabetizao
                              A idia de uma to rpida aprendizagem do ler-e-escrever logo em seguida seria revista                                   com base na
realidade
                              por Paulo Freire e seus companheiros de equipe. Em um to curto tempo, os alfabetizan-                                       de trabalhadores
e
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                                                               trabalhadoras.
                              dos adultos chegaram a um nvel de alfabetizao elementar, aquela em que a pessoa re-
                              conhece letras e palavras, l frases e escreve pequenas mensagens. Mas, mesmo com o
                              emprego de um mtodo to inovador, bastante mais tempo  necessrio para que o estu-
                              dante passe de um nvel elementar a um nvel mais complexo. Este  alcanado quando

                              9
                               O artigo de Paulo Freire de onde essa passagem foi tirada chama-se Conscientizao e alfabetizao: uma nova
                              viso do processo. Ele foi publicado originalmente entre as pginas 5 e 22 da Revista de Cultura da Universidade do
                              Recife, nmero 4, abril/junho de 1963. Anos mais tarde, o mesmo artigo de Paulo Freire e mais os trs outros de
                              pessoas de sua equipe de alfabetizadores foram republicados em um livro coordenado pelo professor Osmar
                         54   Fvero. O livro se chama Cultura Popular e Educao Popular: Memria dos anos sessenta. Foi editado pela Editora
55
                              Graal-Paz e Terra, do Rio de Janeiro, em 1983. A passagem transcrita aqui est na pgina 124 do livro.
                                        a pessoa aprende a ler e a escrever com fluncia, compreende de maneira pessoal o que             Podemos imaginar por um
momento como esse novo mtodo de alfabetizao  vivi-
                                        l e sabe dar ao que escreve e l uma interpretao adequada e prpria.                           do entre as pessoas participantes
de um "Crculo de Cultura". Eis aqui um lugar de
                                        Existem muitos mtodos de alfabetizao e de escolarizao primrias de jovens e de               estudos onde professor
e alunos no esto um diante dos outros, enfileirados em
                                        adultos. O que haveria ento de to novo e diferente no Mtodo Paulo Freire? Deixemos             linhas e sentados passivamente
em carteiras frente a um professor e a um quadro-
                                        que o seu autor nos revele.                                                                       negro. Eles esto ao redor
de um crculo onde todos sentam uns ao lado dos outros
                                                                                                                                          e a uma mesma distncia
do centro.


                                                               H mais de 15 anos vnhamos acumulando experincias
                                                               no campo da educao de adultos, em reas proletrias
                                                               e subproletrias, urbanas e rurais.
                                                               ...                                                                          A experincia
                                                                                                                                         de Angicos (RN)
                                                               Sempre confiamos no povo. Sempre rejeitamos frmu-
                                                                                                                                           referncia na
                                                               las doadas. Sempre acreditamos que tnhamos algo a                          vida e obra de
                                                               permutar com ele, nunca exclusivamente a oferecer-lhe.                        Paulo Freire.
                          Nos Crculos Populares,              Experimentamos mtodos, tcnicas, processos de comu-                    Nessa cidade, 300
                          nascidos do Movimento                                                                                            trabalhadores
                                                               nicao. Retificamos erros. Superamos procedimentos.
                               de Cultura Popular                                                                                            rurais foram
                              no Recife na dcada              Nunca, porm, sem a convico que sempre tivemos de                      alfabetizados em
                             de 1960, Paulo Freire             que s nas bases populares e com elas poderamos rea-                              45 dias.
                           teve a oportunidade de              lizar algo de srio e autntico para elas.10
                            trabalhar seu mtodo
                                 de alfabetizao.
                                                                                                                                          Visualizemos um professor
que, ao invs de se colocar diante de seus alunos com uma
                                        Em uma outra passagem do mesmo texto, Paulo Freire estabelece desta maneira as dife-
                                                                                                                                          cartilha j toda escrita
e trazida de longe, e com uma aula "pronta", comece a trabalhar
                                        renas principais entre a sua proposta e as que existiam antes dela:
                                                                                                                                          com os outros "participantes
do crculo" a partir de um material de estudo  as palavras
                                                                                                                                          geradoras  como um primeiro
momento de sua alfabetizao. Um material bsico de
                                                                                                               O Mtodo Paulo Freire





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                               de Alfabetizao           alfabetizao constante
de palavras e de imagens que "falam" a linguagem da vida e da
                                              Ao invs da escola noturna para adultos, em
                                                                                                               ganhou o mundo. Em         cultura do lugar. Falam
o que  de todos ali, porque foram "levantadas" em uma pesquisa
                                              cujo conceito h certas conotaes um tan-                       alguns pases, foram
                                              to estticas, em contradio, portanto, com                                                 do "universo vocabular"
e do "universo temtico" junto s pessoas "do lugar".
                                                                                                               editadas obras que
                                              a dinmica do trnsito, lanamos o crculo                       orientavam a respeito      Podemos imaginar uma "aula"
em que, em lugar da oposio to comum entre um
PROJETO MEMRIA | 2005




                                              de cultura. Como decorrncia superamos                           de sua aplicao.          professor que sabe (ou
pensa que sabe) e uma "turma de alunos" que no sabe (ou
                                              o professor pelo coordenador de debates.                                                    pensa que no sabe), o
que existe  um encontro de participantes da pequena "comu-
                                              O aluno pelo participante do grupo. A aula                                                  nidade aprendente".
                                              pelo dilogo. Os programas por situaes                                                    Uma equipe de trabalhos
 volta do ensinar-e-aprender motivada a uma intensa
                                              existenciais, capazes de, desafiando os gru-                                                troca de vivncia e de
idias. Um grupo de educandos-educadores e de educado-
                                              pos, lev-los, pelos debates das mesmas, a                                                  res-educandos no qual quem
ensina aprende tambm e quem aprende sempre tem
                                              posies mais crticas.11                                                                   tambm algo a ensinar.
                                                                                                                                          Um cenrio do "trabalho
de aprender" onde ningum ensina a ningum, mas todos
                         56       10
                                     Idem, ibidem, p. 111.
                                                                                                                                          aprendem uns com os outros
e todos entre todos. Ali, onde os participantes ensinam         57
                                  11
                                     Idem, ibidem, p. 115.                                                                                e aprendem porque no trabalham
com saberes "de fora", trazidos a eles, mas operam
                              saberes integrando o que "vem de fora" com as suas prprias vivncias, com os seus
                              conhecimentos, com a sabedoria da cultura popular que eles prprios vivem dia a dia e
                              continuamente criam e transformam.
                              Pensemos uma vivncia de alfabetizao em que, em lugar de se aprender apenas a ler-
                              e-escrever palavras de uma maneira instrumental e mecnica, chega-se a saber ler-e-es-
                              crever palavras por meio do aprendizado de um dilogo crtico e criativo com os outros,
                              "ao vivo", e tambm com os textos escritos. Um crculo de trocas de saberes em que se
                              aprende a ouvir e a falar, ao mesmo tempo em que se aprende a ler e a escrever.




                                                                                       Para Paulo Freire, a educao
                                                                                        prtica da liberdade, para o
                                                                                       autoconhecimento e vivncia
                                                                                       criativa. O alfabetizando
                                                                                       exerce papel ativo no processo
                                                                                       de aprendizado, interagindo
                                                                                       com o professor.
                                                                                                                         A essncia da concepo freireana foi
                                                                                                                         concebida em meio ao ambiente adverso
                                                                                                                         do Nordeste das dcadas de 1950 e
                                                                                                                         1960,  poca com mais de 15 milhes
                                                                                                                         de analfabetos. Trinta anos depois da
                              Pois, na verdade, s aprendemos a compreender o que lemos do que algum deixou             experincia de alfabetizao, ele retorna
                                                                                                                         a Angicos para receber homenagens de
                              por escrito quando aprendemos tambm a partilhar com outras pessoas as suas idias.
                                                                                                                         autoridades e do povo, inclusive o Ttulo
                              Quando as acolhemos em nossos silncios e as ouvimos de maneira atenta. Aprendendo         de Cidado Angicano.
                              a ouvir o outro e a respeitar as suas idias, cada um aprende tambm a "dizer a sua pa-





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                              lavra", como gostava tanto de enfatizar Paulo Freire.
                              E esse  o caminho por onde viaja quem, ao mesmo tempo em que aprende a ler-e-escre-
                              ver palavras e idias, aprende a "ler" e a compreender a realidade da vida que vive e do
PROJETO MEMRIA | 2005




                              mundo onde vive. Aprende no apenas a conhecer com inteligncia como a sociedade ,
                              mas aprende tambm a compreender com a conscincia por que ela  assim, como ela
                              foi sendo feita assim e o que  necessrio fazer para que ela seja transformada.
                              Podemos por um momento "trabalhar" com algumas palavras iniciadas sempre com a
                              letra "S", e com elas poderamos lembrar que aprendemos tudo o que nos  significativo
                              e transformador, envolvendo nesse aprendizado as nossas sensaes  viso, audio,
                              olfato, tato e tudo o mais que abre ao mundo as nossas janelas; as nossas sensibilidades
                               afetos, emoes, sentimentos; nossos saberes  tudo o que aprendemos e integramos

                         58   em ns como "aquilo que sabemos"; os nossos sentidos de vida  os valores, os prin-
59
                              cpios, os preceitos que nos dizem quem somos, como devemos ser e como devemos
                                                                                                                       A educadora Ana Maria Arajo Freire, amiga
de adolescncia de Paulo Freire e, vrios
                                                                                                                       anos depois, sua esposa e companheira de vida,
de idias e de ideais, a quem ele amoro-
                                                                                                                       samente chamava de Nita, descreve assim as
etapas do mtodo:


                                                                                                                                        As atividades de alfabetizao
exigem a pesquisa do que Freire cha-
                                                                                                                                        ma "universo vocabular mnimo"
entre os alfabetizandos.  traba-
                                                                                                                                        lhando este universo que
se escolhem as palavras que faro parte
                                                                                                                                        do programa. Estas palavras,
mais ou menos dezessete, chamadas
                                                                                                                                        "palavras geradoras", devem
ser palavras de grande riqueza fon-
                                                                                                                                        mica e colocadas, necessariamente,
em ordem crescente das meno-
                                                                                                                                        res para as maiores dificuldades
fonticas, lidas dentro do contexto
                                                                                                                                        mais amplo da vida dos alfabetizandos
e da linguagem local, que por
                                                                                                                                        isto mesmo  tambm nacional.
                                                                                                                                        A decodificao da palavra
escrita, que vem em seguida  decodifica-
                                                                                                                                        o da situao existencial
codificada, compreende alguns passos que
                                                                                                                                        devem, rigorosamente, se
suceder.
                                                                                                                                        Tomemos a palavra TIJOLO,
usada como a primeira palavra em Bra-
                                                                    O mtodo Paulo Freire                                               slia, nos anos 60, escolhida
por ser uma cidade em construo, para
                                                                    ganhou o mundo,
                                                                    chegando a todos os                                                 facilitar o entendimento
do(a) leitor(a).
                                                                    continentes, formando                                               1. Apresenta-se a palavra
geradora "tijolo" inserida na representao
                                                                    cidados e cidads
                                                                                                                                        de uma situao concreta:
homens trabalhando numa construo;
                                                                    mais conscientes e
                                                                    crticos.                                                           2. Escreve-se simplesmente
a palavra:
                                                                                                                                                                TIJOLO





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                        3. Escreve-se a mesma palavra
com as slabas separadas:
                              conviver; nossos significados  as idias que temos sobre o mundo em que vivemos e                                                TI
 JO  LO
                              sobre como ele deveria ser; e at mesmo as nossas sociabilidades  a nossa vocao de                     4. Apresenta-se a "famlia
fonmica" da primeira slaba:
                              criarmos juntos o mundo em que vivemos e de o transformarmos para vivermos nele.                                                  TA
 TE  TI  TO  TU
PROJETO MEMRIA | 2005




                              Aprendemos uns com os outros, envolvendo todas essas dimenses de nosso ser, viver,                       5. Apresenta-se a "famlia
fonmica" da segunda slaba:
                              sentir e aprender, em nossas "trocas do saber". E aprendendo por meio do dilogo e da                                             JA
 JE  JI  JO  JU
                              partilha de saberes, no aprendemos apenas "coisas", "contedos" ou "conhecimentos".                      6. Apresenta-se a "famlia
fonmica" da terceira slaba:
                              Aprendemos a sentir, a sensibilizar e a convivializar (viver com o outro), buscando                                               LA
 LE  LI  LO  LU
                              novos sentidos de vida e novos significados para as nossas aes. Todo o saber que                        7. Apresentam-se as "famlias
fonmicas" da palavra que est sendo
                              de fato vale alguma coisa  o conhecimento que de alguma maneira me transforma                            decodificada:
                              em um ser melhor.                                                                                                                 TA
 TE  TI  TO  TU
                              Se pudermos imaginar a integrao de tudo o que foi sugerido at aqui, poderemos ento                                            JA
 JE  JI  JO  JU
                         60   compreender um pouco mais a inovao e a dinmica do Mtodo Paulo Freire. Mas como                                                LA
 LE  LI  LO  LU                           61
                              ele acontece mesmo na prtica? Quais so os seus momentos, passo a passo?
                              Este conjunto de "famlias fonmicas" da palavra geradora foi denominado "ficha de
                              descoberta", pois ele propicia ao alfabetizando juntar os "pedaos", isto , fazer dessas
                              slabas novas combinaes fonmicas que necessariamente devem formar palavras da
                              lngua portuguesa.                                                                                                     O universo do
                                                                                                                                                 Cculo de Cultura
                              8. Apresentam-se as vogais:                                                                                           representado.
                                                           AEIOU                                                                              Freire educando,
                                                                                                                                                 alfabetizando, de
                                                                                                                                                  todas as formas.
                              Em sntese, no momento em que o(a) alfabetizando(a) consegue, articulando as slabas,
                              formar palavras, ele ou ela est alfabetizado(a). O processo requer, evidentemente, apro-
                              fundamento, ou seja, a ps-alfabetizao.
                              A eficcia e a validade do "Mtodo" consistem em partir da realidade do alfabetizando,
                              do que ele j conhece, do valor pragmtico das coisas e fatos de sua vida cotidiana, de
                              suas situaes existenciais. Respeitando o senso comum e dele partindo, Freire prope
                              a sua superao.
                              O "Mtodo" obedece s normas metodolgicas e lingisticas, mas vai alm delas, porque
                              desafia o homem e a mulher que se alfabetizam a se apropriarem do cdigo escrito e a se
                              politizarem, tendo uma viso de totalidade da linguagem e do mundo.
                              O "Mtodo" nega a mera repetio alienada e alienante de frases, palavras e slabas, ao
                              propor aos alfabetizandos "ler o mundo" e "ler a palavra", leituras, alis, como enfatiza
                                                                                                                                                Nasceram nesse perodo
vrias alternativas do que vieram a ser as inovaes de uma
                              Freire, indissociveis. Da ter vindo se posicionando contra as cartilhas.12
                                                                                                                                                outra pedagogia.
Surgiram e multiplicaram-se as experincias brasileiras e latino-ameri-
                                                                                                                                                canas de ao social,
as criaes de movimentos sociais e de frentes populares de causas
                              Sabemos j que os anos entre 1960 e 1964 foram tempos de uma intensa mobilizao e                                e de lutas, a nova
"msica popular brasileira", o cinema novo, as novas experincias
                              criatividade social no Brasil. Provavelmente no teremos vivido um outro breve tempo                              literrias, o teatro
do oprimido e outras variantes de teatro popular. Muito do que veio





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                              assim. No campo das artes, das cincias, das aes sociais de vocao transformadora,                             a frutificar nos
anos de fogo da ditadura nasceu nessa curta, esperanosa, sofrida e to
                              assim como no da educao, em raras outras ocasies estudou-se tanto, inovou-se tanto,                            ainda presente poca
de nossa histria. Paulo Freire esteve sempre na frente de tudo o
                              debateu-se tanto, experimentou-se tanto e tentou-se criar o novo com tanta intensidade                            que acontecia e dos
movimentos que queriam a transformao social. Pagaria caro por
                              e com tamanha emoo.                                                                                             essa ousadia.
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                                                                                                                                                Em 1958 o professor
Paulo foi o relator de um documento da Comisso Regional de Per-
                                                                                                                                                nambuco a respeito
da educao no Estado. Em A Educao de Adultos e as Populaes
                                                              Homem sendo
                                                                                                                                                Marginais, ele j
se revelava um fecundo pensador revolucionrio. Desde seus primeiros
                                                     alfabetizado no Crculo
                                                        de Cultura do Gama,                                                                     artigos, as marcas
de crtica social e de criatividade pedaggica eram evidentes.
                                                       em setembro de 1963.                                                                     Depois das experincias
de Angicos com o mtodo de alfabetizao, durante o governo
                                                                                                                                                de Joo Goulart,
Paulo Freire recebeu do Ministro da Educao, Paulo de Tarso Santos,
                                                                                                                                                um novo e mais amplo
desafio: o de criar, implantar e coordenar o Programa Nacional de
                              12
                                Essas passagens sobre o Mtodo Paulo Freire foram tomadas do livro Paulo Freire: uma biobibliografia, em seu    Alfabetizao. Tratava-se
de pensar e colocar em prtica um trabalho popular de alfabe-
                         62   primeiro artigo A voz da esposa  a trajetria de Paulo Freire, de Ana Maria Arajo Freire. As citaes tomadas   tizao em escala
nacional, a partir dos promissores resultados obtidos com a aplicao    63
                              esto nas pginas 38, 39 e 40.
                                                                                                                                                do Mtodo Paulo Freire
de Alfabetizao no Nordeste.
                                                                                 PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                    Paulo de Tarso,    O ento Presidente
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                              Ministro da Educao     Joo Goulart
                                     e Paulo Freire,   assina, em janeiro de
                                  durante visita ao    1964, o Decreto que
                              Crculo de Cultura do    criou o Plano Nacional
                               Gama, em setembro       de Alfabetizao,
                                           de 1963.    coordenado por
                                                       Paulo Freire.




                         64                                                     65
                                            7.
                                                      Os Anos do Exlio:
                                                 a Pedagogia
                                                              do Oprimido.

Aos esfarrapados do




                                                                                                                  PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
mundo e aos que neles         Quando o Programa Nacional de Alfabetizao estava quase pronto para ser
se descobrem e, assim         posto em marcha, aconteceu no Brasil o golpe militar de 1964. Criado por decre-
descobrindo-se, com eles      to-lei em janeiro desse ano, o "Programa" foi extinto em abril. Os movimentos de
sofrem, mas, sobretudo,       cultura popular foram colocados sob suspeita e fortemente reprimidos, tal como
com eles lutam.               aconteceu tambm com outros movimentos e frentes de mobilizao e de luta
                              popular no campo e na cidade.

Pedagogia do oprimido, 1968




                                                                                                                 67
                              As idias e as propostas poltico-pedaggicas de Paulo Freire eram ento bastante co-
                              nhecidas. Ele era convidado a dialogar com educadores populares de norte a sul do
                              Brasil. No interior de um amplo universo de trabalhos pedaggicos e polticos e de cul-
                              tura popular, que em todo o pas mobilizava artistas, estudantes, educadores, cientistas,
                              religiosos e educadores, alm de inmeras lideranas populares, Paulo Freire se tornou
                              em pouco tempo uma referncia essencial. E foi justamente a ousadia de suas idias e
                              propostas que o levou ao exlio.




                                                                                                                            Preso pela Ditadura
                                                                                                                            Militar, Paulo Freire
                                                                                                                           decide deixar o pas e
                                                                                                                           parte para o exterior,
                                                                                                                               dando incio a um
                                                                                                                                exlio de 16 anos.




                                                                               Reunio do Conselho Nacional
                                                                               de Cultura com o ministro
                                                                               da educao, Paulo de Tarso,
                                                                               define estratgias para
                                                                               execuo do Plano Nacional





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                                                                               de Alfabetizao.



                              Ainda no ano de 1964, por duas vezes, no Recife, Paulo foi "convidado a explicar-se"; pri-
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                              meiro aos acadmicos e, depois, aos militares, respondendo a inquritos administrativo
                              e policial-militar. Mesmo sem haver culpa formal alguma a seu respeito, ele permaneceu
                              detido durante setenta dias.
                              Com 43 anos, cinco filhos, uma carreira promissora pela frente e o sentimento de que,
                              mais do que nunca, cada uma de suas palavras e gestos continha um profundo sentido
                              e falava de uma enorme urgncia, ele se viu obrigado a pedir asilo junto  Embaixada da
                                                                                                                                                     Salvoconduto
da Bolvia
                              Bolvia. Viajou para l sozinho e a famlia uniu-se a ele meses mais tarde.                                            autoriza a sada
do exilado
                              Era o ms de setembro. De algum modo, Paulo e Elza sabiam que haveriam de viver                                        Paulo Freire
daquele pas,
                         68   longos anos longe do Brasil. De fato, eles retornariam definitivamente ao pas ape-                                    em novembro
de 1964. O        69
                                                                                                                                                     primeiro dos
pases que o
                              nas em 1980.                                                                                                           acolheriam.
                                       Esteve na Bolvia apenas por 40 dias. Logo se transferiu para o Chile e viveu em Santiago                        Dos "tempo
do Chile" ele deixou uma bela referncia:
                                       entre novembro de 1964 a abril de 1969. Pouco depois de chegar ao novo pas latino-
                                       americano de acolhida, Paulo Freire recomeou a trabalhar com o mesmo empenho e o
                                       mesmo entusiasmo de sempre. Como ele mesmo repetiu em vrias ocasies, h opes
Um sonho que tenho, entre um sem-nmero de outros, 
                                       de vida que no conhecem fronteiras, e o trabalho em prol do povo no tem propriamen-
"semear" palavras em reas populares, cuja experincia
                                       te uma ptria, porque  de todas elas e de todos os povos da Terra.
popular no seja escrita, quer dizer, reas de memria
                                       No Chile, Paulo Freire conseguiu realizar o que sonhou fazer no Brasil: participar de
preponderantemente oral. No Chile, quando l vivi no
                                       um programa de educao popular durante um tempo mais prolongado, estabelecer
meu tempo de exlio, os "semeadores de palavras" em
                                       metas, definir propostas, formar pessoal, acompanhar processos e avaliar resulta-
reas de reforma agrria foram os prprios camponeses
                                       dos. Em Santiago, ele foi um assessor do Instituto de Desarrollo Agropecuario do
alfabetizandos, que as "plantavam" nos troncos das rvo-
                                       Ministrio da Educao. Durante algum tempo, ele foi tambm consultor do Instituto
res, s vezes, no cho dos caminhos.14
                                       de Capacitacin y Investigacin en Reforma Agraria, trabalho que realizou como um
                                       profissional da UNESCO.13

                                                                                                                                                        Ao final
do seu tempo de trabalho como um educador exilado no Chile, ele se transferiu
                                                                                                                                                        com a famlia
para os Estados Unidos da Amrica do Norte. No seria o ltimo pas de
                                                                                                                                                        acolhida
e nem o ltimo continente de sua peregrinao longe do Brasil. Ele j recebera
                               Cartazes                                                                                                                 o convite
para ir trabalhar na Europa, mas viveu em Cambridge, no estado de Massa-
                              utilizados
                          por Freire, no
                                                                                                                                                        chussets,
pouco menos de um ano, ministrando aulas de pedagogia na conhecida Uni-
                            trabalho de                                                                                                                 versidade
de Harvard, e levando, a um pas distante, as suas idias sobre a educao e
                          alfabetizao                                                                                                                 o seu novo
alcance social.
                               no Chile.
                                                                                                                                                        Meses depois,
ele viajou com a famlia para a Europa e foi viver na cidade de Genebra,
                                                                                                                                                        na Sua,
trabalhando no setor de educao do Conselho Mundial de Igrejas, uma insti-
                                                                                                                                                        tuio de
confisses evanglicas que, entre outras atividades, protegia perseguidos pol-





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                                                                                                                                                        ticos. Ora,
essa longa experincia de estudos, de dilogos e de trabalhos abarcou todo o
                                       O Chile vivia ento os tempos do governo democrtico de Eduardo Frei, seguido pelo                               seu tempo
de exlio, de 1969 at o seu retorno ao Brasil em 1980.
                                       breve e desafiador governo socialista de Salvador Allende. E foi nesse clima de liberdade                        Esse tempo
de exlio permitiu ao educador brasileiro vivenciar o profundo sentido de
                                       e de criatividade social que vrias experincias renovadoras no campo da ao social e                           "cidadania
mundial". Paulo Freire foi convocado a viajar, continuamente, pelos cinco con-
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                                       da educao foram, em pouco tempo, levadas a efeito. Mas, como antes acontecera no                               tinentes.
Ele visitou vrias naes e conviveu com pessoas polticas, com militantes so-
                                       Brasil, no por muito tempo. Em 1973, o sangrento golpe militar liderado por Augusto                             ciais, com
agentes populares e com educadores de inmeros pases.
                                       Pinochet desmobilizaria, em poucos meses, as bases de uma das tentativas mais promis-                            Naes recm-libertadas
da frica o acolheram em diversas ocasies. O que se viveu e
                                       soras de transformao social no continente sul-americano. Paulo Freire no assistiu                            pensou nelas
em favor de uma nova educao haver de ser muito importante em sua
                                       lastimvel queda do governo de Salvador Allende.                                                                 vida, dali
em diante. Em diferentes ocasies, Paulo Freire lembrar a pessoas de pases e
                                                                                                                                                        lnguas,
ora prximas, ora distantes, a inovao de suas idias e propostas de libertao
                                                                                                                                                        nacional.
                                       13
                                         Muitos anos mais tarde, Augusto Nibaldo Silva Trivios e Balduino Antnio Andreola publicam um livro
                                       dedicado s experincias de dois brasileiros exilados no Chile: Ernani Maria Fiori e Paulo Freire. O livro foi
                         70            publicado pela Editora Ritter dos Reis, de Porto Alegre, em 2001, e tem o nome de Freire e Fiori no Exlio: Um   14
                                                                                                                                                          TRIVIOS,
Augusto Nibaldo Silva & ANDREOLA, Balduino A. Freire e Fiori no exlio: Um projeto pedaggico-   71
                                       projeto pedaggico-poltico no Chile.                                                                            poltico
no Chile. Porto Alegre: Editora Ritter dos Reis, 2001, p. 174.
                                No exlio, com o filho
                                Lutgardes, na poca
                                  em que comeou a
                              deixar a barba crescer
                                   por causa do frio.




                                                                                               Carta de Henfil
                                                                                 "devolvendo" seu passaporte
                                                                                     como protesto  negao
                                                                                    desse documento a Freire
                                                                                     e outros brasileiros, pela
                                                                                             Ditadura Militar.





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                                                                                    Poucas experincias de vida inteira tero sido to marcantes quanto o dialogar
com jo-
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                                                                                    vens polticos, militantes e educadores de pases como a Guin-Bissau, Cabo Verde,
So
                                                                                    Tom e Prncipe e Angola. Em alguns desses pases, Paulo Freire conheceu alguns
dos
                                                                                    momentos mais gratificantes de sua vida de educador: levar a contribuio de
seu mto-
                                                                                    do de alfabetizao, de sua pedagogia humanista e de sua educao libertadora
a progra-
                                                                                    mas de formao de jovens e de adultos de novas naes pela primeira vez livres
e, no
                                                         Paulo Freire, com seu      entanto, quase devastadas por anos de opresso e de guerras de libertao.
                                                         filho Lutgardes, e         Ele dedicou livros e artigos a educadores africanos, especialmente das jovens
naes
                                                         Betinho com seu filho
                                                         Daniel, no Canad, de
                                                                                    de lngua portuguesa, recm-emancipadas. O que ele l e estuda, em boa medida,
vem
                         72                              frias, em 1978.           da Europa e dos Estados Unidos. Mas o que ele vive e presencia vem, agora, da
frica,     73
                                                                                    como viera antes e vir de novo, depois, do Brasil e da Amrica Latina.
                                                                                                         Paulo Freire 
                                                                                                         cidado do mundo.
                                                                                                         Abaixo, nas Ilhas
                                                 Andarilhando                                            Figi, promovendo
                                               pelo mundo. No                                            alfabetizao.
                                           continente africano,
                                          estabeleceu contatos
                                             com os governos e
                                           trabalhou o Mtodo
                                              em vrios pases.




                                                                  Paulo Freire ao lado de Miguel Darcy
                                                                  de Oliveira, do IDAC, e de Mrio
                                                                  Cabral, Ministro da Educao da
                                                                  Guin-Bissau, em 1978.




                                                                                                                                                     PAULO FREIRE
| EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                            Ao ser chamado para
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                                                                                                                               conduzir o projeto
                                                                                                                    educacional da Guin-Bissau,
                                                                                                                     Paulo Freire nos relata suas
                                                                                                                        emoes, identificaes e
                                                                                                                         angstias. Opta por no
                                                                                                                       prescrever um receiturio
                                   Paulo Freire trabalhando                                                             pedaggico; ao contrrio,
                                     com o Coordenador do                                                              partilha o esforo comum
                                 Programa de alfabetizao                                                           de conhecer a realidade que
                              do Ministrio da Educao da                                                           busca transformar, na ajuda
                                     Guin-Bissau, em 1976.                                                              e conhecimento mtuos.
                         74                                                                                                                         75
                                                                                                Uma das aproximadamente
                                                                                                80 classes de povos nmades
                                                                                                do deserto do Qunia que
                                                                                                alfabetizavam com o mtodo
                                                                                                Paulo Freire, em 1985.




                                                                                                                                        Itlia     Indonsia
Espanha               Argentina




                                                                                                                              Espanha




                                                                                                                                                     A obra de Paulo
                                                                                                                                                     Freire foi traduzida
Itlia

                                                                                                                                                     em mais de 20





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                                     idiomas.



                              Poucas alegrias foram to grandes em sua vida quanto ver suas palavras pronunciadas,
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                                                                                                                                                   Argentina
Inglaterra
                              agora, em lnguas de culturas africanas, ou no portugus "de l", construindo momentos
                              de alfabetizao com o uso de seu mtodo. Esse ser o momento em que as leituras de
                              Franz Fanon, Amilcar Cabral, Samora Machel ou Julius Nyerere sero to marcantes
                              quanto s de conhecidos intelectuais brancos e europeus.
                              Em uma outra direo, as idias de Paulo Freire viajam mais do que ele mesmo. Elas co-                    Alemanha
                              meam a ser, cada vez mais, lidas e traduzidas em vrias e diferentes lnguas. Em menos
                              de dez anos, ele se transforma em um dos educadores mais conhecidos e influentes.
                              Todos aqueles que se voltam para a construo de "novos tempos" reconhecem que 
                         76   quase impossvel pens-los sem a contribuio de Paulo Freire. Foi j no exlio que Paulo
77
                              completou o seu trabalho mais conhecido e traduzido em todo o mundo.
                                                                                                                Holanda




                                                                                                                          Em vrias lnguas Pedagogia do oprimido
foi traduzido, lido, debatido e aplicado por pen-
                                                                                                                          sadores e militantes, por educadores eruditos
e trabalhadores populares de todo o mun-
                                                                Alemanha
                                                                                                                          do. Devem ser muito raros em toda a longa
histria universal da educao os livros que,
                                                                                                                          como o seu, serviram tanto a educadores
de carreira quanto a inmeros outros estudio-
                                                                                                                          sos e militantes das causas sociais, e
mesmo a pessoas que pouco tinham a ver com a
                                                                                                                          educao. Entre os ltimos anos dos "sessenta"
e os primeiros anos dos "setenta", o que
                                                                                                                          antes acontecia no Brasil e na Amrica
Latina difunde-se por todo o mundo. Cada vez
                                                                                              O livro Pedagogia           mais os livros de Paulo Freire tornavam-se
um dos pilares das pedagogias crticas e dos
                                                                                              do Oprimido, uma
                                                                                                                          movimentos populares. E assim  at hoje.
                                                                                              das obras mais
                                                                                              importantes de Freire,      No entanto, no Brasil suas idias seguiam
sendo vigiadas e os seus livros, proibidos,
                                                                                              est presente em            mesmo em universidades. Apenas s escondidas
falava-se sobre Freire e difundiam-se
                                                  Brasil
                                                                                              todos os continentes.
                                                                                                                          os seus livros e as suas palavras, ao mesmo
tempo em que, em todo o mundo livre, go-
                                                                                                                          vernos populares, universidades, instituies
privadas e pblicas disputavam a sua pre-
                                     Inglaterra                            Noruega
                                                                                                                          sena e o cumulavam de um merecido reconhecimento.
Algum tempo aps seu retorno
                                                                                                                          ao Brasil, em uma entrevista com Frei Betto,
Paulo Freire lembra desta maneira o que
                                                                                                              Indonsia
                                                                                                                          representaram os anos de exlio:




                                                                                                                                                        Para mim
o exlio foi profundamente pedaggico.
                                                                                                                                                        Quando exilado,
tomei distncia do Brasil, comecei
                                                                                                                                                        a compreend-lo
melhor.
                                                                                                                                                        Foi exatamente
ficando longe dele, preocupado





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                                        com ele,
que me perguntei sobre ele. E, ao me per-
                                                                                                                                                        guntar sobre
ele, me perguntei sobre o que fizeram
                              Estados Unidos               Itlia                                           Frana
                                                                                                                                                        com outros
brasileiros, milhares de brasileiros da
                                                                                                                                                        gerao jovem
e da minha gerao. Foi tomando
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                                                        distncia
do que fiz, ao assumir o contexto provis-
                                                                                                                                                        rio, que
pude melhor compreender o que fiz e pude
                                                                                     Sucia
                                                                                                                                                        melhor me
preparar para continuar fazendo algo
                                                                                                                                                        fora do meu
contexto e tambm para me preparar
                                                                                                                                                        para uma
eventual volta ao Brasil.15




                         78                                                                                               15
                                                                                                                            FREIRE, Paulo & FREI BETTO (CHRISTO,
Carlos Alberto Libanio). Essa escola chamada vida. So Paulo: Edi-   79
                                                                                                                          tora tica, 1985, p. 56.
                                                  8.
                                                              O Retorno de um
                                            Educador sem
                                                                      Fronteiras.




                                                                                                                          PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
Quando penso em minha            E o dia do retorno chegou afinal. Em agosto de 1979, Paulo volta apenas por alguns
Terra, penso sobretudo           dias ao Brasil. Em junho de 1980, ele volta com a famlia definitivamente, para aten-
no sonho possvel  mas          der ao convite para ser professor da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo.
nada fcil  da inveno         Volta no para Recife e Pernambuco, mas para a cidade de So Paulo, onde viver
democrtica de nossa             toda a sua "vida de retorno do exlio".
sociedade.


 Sombra desta mangueira, 1995




                                                                                                                         81
                              Quando j era um docente da PUC/SP, a Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo,
                              Paulo foi nomeado professor da Universidade Estadual de Campinas. Nessa universida-
                              de ele participou da fundao do Centro de Estudos em Educao e Sociedade -- CEDES.
                              Logo a seguir ele participar tambm da criao do Conselho Latino-Americano de Edu-
                              cao de Adultos, do qual ser sempre o "Presidente Honorrio".





Paulo Freire

retorna pela
                                                                                                                        Depois de 16 anos
primeira vez
                                                                                                                          de exlio, Freire
ao Brasil em
                                                                                                                           consegue o to
agosto de 1979.
                                                                                                                      sonhado passaporte
Fica apenas
                                                                      No aeroporto, Freire                          para entrar no Brasil
um ms e volta
                                                                      recepcionado por uma                              e reconquista seu
para Genebra.
                                                                      multido. Anuncia                                  Ttulo de Eleitor.
                                                                      que chega "para
                                                                      reaprender o Brasil".





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                                                                      Ao lado, com Elza e
                                                                      sua irm Stella.
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                     Aqueles foram momentos de um tempo de um duplo
retorno: a volta ao seu amado
                                                                                                                     Brasil e o retorno  vida de professor de sala-de-aula,
atividade a que pouco ele pde se
                                                      Reconhecido                                                    dedicar quando no exlio na Europa, embora por
algum tempo tenha lecionado na Uni-
                                                    mundialmente,                                                    versidade de Genebra. Nas salas de aula, Paulo
Freire volta a conviver com estudantes.
                                                     Freire retorna
                                                                                                                     E, de novo, coloca em prtica suas idias e
seus valores pedaggicos de sempre. Ele foi
                                                          como um
                                                                                                                     um professor que vinha dizer a sua palavra sem
impor os seus saberes, mas um docen-                    83
                         82                               dos mais
                                                      importantes                                                    te-aprendente que se anunciava como algum aberto
a ouvir antes de falar e a aprender
                                                       educadores
                                                          da poca.
                                        ensinando. Suas aulas eram o dilogo, as trocas livres e solidrias de idias, muitas
                                        delam nascidas muito mais das experincias de vida dos estudantes do que de suas lei-
                                        turas tericas. Seu lema de vida e trabalho era o princpio de que "estudar educao" no
                                        deveria ser um exerccio ocioso e acadmico. Deveria ser, antes, uma formao integral e
                                        crtica da pessoa que estuda para se devotar a um compromisso com as pessoas de seu
                                        mundo e, mais ainda, com as pessoas do povo.
                                        Sua didtica visa  criao de um clima de busca, de pesquisa, de dilogo e de respeito
                                        ao outro. Um clima do "trabalho de ensinar-e-aprender" que torne a aula uma vivncia
                                        de trocas e de reciprocidades.
                                        Uma amorosa troca contnua que torne o aprendizado uma relao ao mesmo tempo
                                        cientificamente rigorosa e afetivamente interativa e fecunda. Cada estudante  chamado        Em El Salvador,
                                                                                                                                            no Comit
                                        a se sentir e a se reconhecer como uma fonte nica e original de saberes e de sensibili-
Nas
                                                                                                                                    Intergremial para
                                        dades. Cada integrante do grupo deve assumir que sua individualidade  nica, mas que         a Alfabetizao.
Universidades

ou na ao
                                        ele s se realiza plenamente no coletivo social.

popular, Freire
                                        E a diversidade de formas de conhecimento deve ser compreendida como um valor de
manteve o foco
                                        diferena entre pessoas iguais e solidrias em suas peculiaridades, bem mais do que
de defender

as causas e
                                        como uma hierarquia entre estudantes e professores, considerados como desiguais em

as lutas dos
                                        seus saberes e competitivos em seus interesses.
oprimidos e das

oprimidas.




                            No Brasil, Freire
                            volta a dar aulas
                          em Universidades





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                             e se envolve nos
                                 movimentos                                                                                           Da mesma maneira como muitos
anos antes acontecera no incio de sua carreira em
                                      sociais,
                                                                                                                                      Pernambuco, tambm em So Paulo
o professor Paulo no limitou o seu trabalho univer-
                           especialmente na
                          rea da educao.                                                                                           sitrio e de educador aos mbitos
da academia e do ensino superior. Ao contrrio, a sua
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                                      carreira continua a ser dirigida
pelo desejo de dedicar-se  alfabetizao e  educao
                                                                                                                                      das pessoas deixadas  margem
da vida e da escola. Sua fidelidade mais intensa continu-
                                                                                                                                      ar sendo para com os grupos
e movimentos populares. Mesmo aps os setenta anos de
                                                                                                                                      idade, quantas vezes Paulo
Freire deixar o conforto de So Paulo e as salas da "Catlica
                                                                                                                                      de So Paulo" para ir compartilhar
suas idias e propostas com lavradores assentados da
                                                                                                                                      Reforma Agrria, em algum recanto
rural distante.
                                                                                                                                      Seu vnculo com os movimentos
populares permaneceu sempre como uma prioridade
                                                                                                                                      de vida. Vrias vezes Paulo
Freire recusou convites de instituies de renome, no Brasil e
                         84                                                                                                           no exterior, para no faltar
a um compromisso assumido com algum movimento popular,                   85
                                                                                                                                      mesmo que pequeno.
     Junto com
  Lula e outras
    lideranas,                                                                                                                                       Como Secretrio
de
   Paulo Freire                                                                                                                                   Educao da cidade
de
     foi um dos                                                                                                                                   So Paulo, na gesto
de
 fundadores do                                                                                                                                     Luiza Erundina,
Paulo
   Partidos dos                                                                                                                                 Freire foi atuante
e, entre
Trabalhadores.                                                                                                                                       outras aes,
criou o
                                                                                                                                                 Mova-SP, um movimento
                                                                                                                                                      de alfabetizao
de
                                Em 1988 ele aceitou o convite de Luiza Erundina de Souza, prefeita eleita pelo mesmo                                     jovens e
adultos.

                                Partido dos Trabalhadores do qual Paulo Freire havia sido um dos fundadores e militante,
                                para ser o Secretrio de Educao do Municpio de So Paulo. Tomou posse do cargo em
                                                                                                                           Manisfestao para
                                1 de janeiro de 1989.                                                                       que Paulo Freire





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                               permanecesse
                                                                                                                           como Secretrio de
                                                                                                                           Educao, em 1990.
  PROJETO MEMRIA | 2005




                                              Ficha de
                                          cadastro de
                                          Paulo Freire
                                        no Partido dos
Momento da posse
                                       Trabalhadores.
como Secretrio,

em 1989.


                           86
87

O MOVA BRASIL,

de inspirao freireana, 

um projeto da Petrobras
                              Ana Maria Arajo Freire comenta assim o que foi o fecundo perodo em que ele esteve
em parceria com o
                               frente da educao em So Paulo:
Instituto Paulo Freire e
                                                                                                                                                                com
a Federao nica dos

Petroleiros. Tem a meta de

alfabetizar 40 mil jovens e
                                         Suas decises polticas, nascidas de sua prpria teoria e de suas pr-
adultos e capacitar 4.600
                                         ticas de educador pelo mundo  no seria exagero dizer do mundo ,
alfabetizadores em
                                         como tambm nascidas da prxis educativa das pessoas da equipe
3 anos.

                                         tcnica que o assessorou, as quais traduziam a vontade e a necessida-
                                         de das comunidades, marcaram, indelevelmente, a educao da rede
                                         de ensino do municpio de So Paulo.
                                                                                                                                                Essa experincia
do MOVA-SP, liderado por Paulo Freire, foi adquirindo novas faces. O
                                         Assim, "seu" trabalho foi profcuo, "mudando a cara da escola", como
                                                                                                                                                Projeto MOVA-Brasil
 um bom exemplo. Nasceu em 2003 como proposta da Petrobras
                                         costumava dizer. Reformou as escolas, entregando-as s comunida-
                                                                                                                                                em parceria com a
Federao nica dos Petroleiros e o Instituto Paulo Freire, com o
                                         des locais dotadas de todas as condies para o pleno exerccio das
                                                                                                                                                desafio de alfabetizar
40.000 alunos, formar 1.600 educadores em trs anos e promover
                                         atividades pedaggicas. Reformulou o currculo escolar para adequ-
                                                                                                                                                parcerias locais
entre governos municipais, associaes e sindicatos para o atendimento
                                         lo tambm s crianas das classes populares e procurou capacitar
                                         melhor o professorado em regime de formao permanente. No se                                         das comunidades.
                                         esqueceu de incluir o pessoal instrumental da escola como agente                                       Os diversos MOVAS
criados pelo Brasil constituram a Rede MOVA BRASIL, que, junto
                                         educativo, formando-o para desempenhar adequadamente tal tarefa.                                       com o Frum Nacional
de Educao de Jovens e Adultos, tenta manter viva a proposta
                                         Eram os vigias, as merendeiras, as faxineiras, as(os) secretrias(os)                                  original de Paulo
Freire. Em junho de 2005 foi realizado em Luzinia, muito perto de
                                         que, ao lado de diretores(as), professores(as), alunos(as) e pais de                                   Braslia, o V Encontro
Nacional da Rede MOVA BRASIL, um grande momento de reen-
                                         alunos(as), faziam do ato de educar um ato de conhecimento, elabora-                                   contro de militantes
da educao popular libertadora. No grande palco, um painel em
                                         do em cooperao a partir das necessidades socialmente sentidas.16                                     cores deixava ver
uma imagem de Paulo Freire, de corpo inteiro. A todo o momento ele
                                                                                                                                                era lembrado.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                              Uma vez mais o professor Paulo estava s voltas com a alfabetizao de jovens e de
                              adultos. Ele e a sua nova equipe trabalharam intensamente na criao do MOVA  Movi-
                              mento de Alfabetizao. Em incontveis locais populares da cidade de So Paulo e de sua
                              periferia, um amplo programa solidrio de educao de jovens e de adultos foi posto em
PROJETO MEMRIA | 2005




                              marcha. Seu mtodo de alfabetizao, revisto e melhorado com a contribuio de outros
                              especialistas em alfabetizao e em educao de adultos, volta a ser trabalhado, tantos
O Programa

BB EDUCAR,
                              anos depois das primeiras experincias no Nordeste.

da Fundao
                              A experincia do MOVA-SP se multiplicaria para outras regies do pas, de tal sorte
Banco do Brasil,
                              que at hoje, em vrios governos, ela  a escolhida como prioridade educacional na
 exemplo de

prtica de
                              alfabetizao e na educao de jovens e adultos, em parceria com organizaes da

cidadania e
                              sociedade civil.
incluso social,

a partir da

concepo
                         88   16
                                 FREIRE, Ana Maria Arajo. "A voz da Esposa". In: GADOTTI, Moacir (Org.). Paulo Freire - uma biobibliografia.
89

freireana para a
                              So Paulo: Cortez Editora, UNESCO, Instituto Paulo Freire, 1996, p. 47.

educao.
                                       Em outubro de 1986, Paulo perdeu Elza, a companheira de vida e de trabalhos de educa-
                                       o, durante quarenta e dois anos. Elza fora uma professora de escola e, em vrios mo-
                                       mentos, Paulo Freire confessou o quanto devia a ela em suas idias e em suas propostas
                                       de trabalho pedaggico.
                                       Em maro de 1988, ele se casou uma outra vez. Como em uma dessas histrias humanas
                                       e eternas de amor, Paulo reencontrou Ana Maria Arajo Hasche. Ela  filha de Aluzio
                                       Arajo, o professor que, muitos anos antes, facultou ao ento adolescente Paulo a con-
                                       cluso dos seus estudos escolares, no distante Recife da adolescncia.





Com Nita,

Freire viveu os

ltimos 10 anos

de vida com

uma grande

energia.



                                                                                                                                Paulo e Ana Maria se conheceram na
infncia dela e na juventude dele. Ao longo de suas
                                                                                                                                vidas, eles se encontraram muitas
vezes, pois foram sempre muito amigos. Quando ele





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                era professor do Programa de Ps-graduao
da "Catlica de So Paulo", ela foi novamen-
                                         Paulo Freire
                                reencontrou o amor                                                                              te sua aluna e depois sua orientanda
na elaborao de sua dissertao. Ao lado de Ana
                                 e iniciou uma nova                                                                             Maria  Nita, como ele a chamou sempre
, Paulo viveu os ltimos 10 anos de sua vida
                                   etapa de vida em
                                                                                                                                at nos deixar.
                                  maro de 1988, ao
PROJETO MEMRIA | 2005




                                  lado de Ana Maria                                                                             No dia 2 de maio de 1997, Paulo Freire
faleceu. Ele tinha 75 anos, mas meses e mesmo
                                Arajo Freire, amiga                                                                            dias antes de sua morte ele convivia
com Nita, com os filhos e netos dela, seus filhos e
                                    desde a infncia,
                                                                                                                                netos e seus amigos, com uma tal
alegria, com uma to grande lucidez, com uma tama-
                              aluna na adolescncia
                                   e depois no curso                                                                            nha entrega ao trabalho, que parecia
carregar bem menos anos de idade e fadigas de vida
                                     de mestrado da                                                                             do que realmente tinha e vivia.
                                    PUC/SP, onde foi
                                                                                                                                Logo aps a sua morte, um jornal
de Pernambuco publicou uma carinhosa caricatura.
                                   seu orientador de
                                        Dissertao.                                                                            Um homem de longos cabelos e com
as barbas brancas, de um olhar jovem e doce,
                                                                                                                                aparece sentado numa cadeira apoiada
em uma nuvem. Dois pequeninos anjos-crianas
                         90                                                                                                     esto sobre as suas pernas. Com um
livro nas mos brancas de giz e por trs dos culos     91
                                                                                                                                inseparveis, ele ensina os pequenos
anjos a ler.
                                                       A morte de Paulo
                                                    Freire repercutiu na
                                                    imprensa nacional e
                                                    mundial. O professor
                                                    do mundo deixava a
                                                            sala de aula.




                                                                                                PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                              Nas mais diversas                             Carta de
                                representaes,                             Condolncias dos
                                     a morte de                             Senadores da
                                 Paulo Freire foi                           Repblica
                              evidenciada como
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                                                                            do Brasil.
                              uma grande perda
                               para a educao
                                     no mundo.




                         92                                                                    93
                                          9.
                                    Educar com o Amor,
                                          Educar para Amar
                                                                      a Vida.




                                                                                                               PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
O amor  uma                Paulo Freire sempre foi uma pessoa amorosamente atenta  natureza. Plantas e
intercomunicao ntima     animais acompanharam sempre suas imagens e memrias. Em 1982, ele des-
de duas conscincias que    creveu em um outro livro seu, A importncia do ato de ler, a velha casa e a sua
se respeitam. Cada um tem   vida ali:
o outro como sujeito de
seu amor. No se trata de
apropriar-se do outro.

Educao e mudana, 1979



                                                                                                              95
                                                 Me vejo ento na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de
                                                                                                                                               O livro trata da
                                                 rvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre
                                                                                                                                     importncia do ato de ler
                                                 ns   sua sombra brincava e em seus galhos mais dceis  minha                        em uma comunicao,
                                                 altura eu me experimentava em riscos que me preparavam para riscos                        sobre as relaes da
                                                 e aventuras maiores.                                                                 biblioteca popular com a
                                                                                                                                      alfabetizao de adultos
                                                                                                                                       e expe a experincia de
                                                 A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sto, seu terrao  o                  alfabetizao de adultos
                                                 stio das avencas de minha me , o quintal amplo em que se achava,                           desenvolvida em
                                                 tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus                     So Tom e Prncipe

                                                 de p, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim
                                                 como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o
                                                 mundo de minhas primeiras leituras.17
                                                                                                                                Tudo o que foi a matria-prima de
sua atividade de educador  "textos", "palavras", "le-
                                                                                                                                tras"  serviu para falar de um mundo
natural que foi sempre uma referncia de vida
                                                                                                                                para ele.




                                                                                                                                                Os "textos", as "palavras",
as "letras" daquele contexto se encarnavam no
                                                                                                                                                canto dos pssaros
 o do sanhau, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o
                                                                                                                                                do bem-te-vi, o do
sabi, na dana das copas das rvores, sopradas por
                                 Ilustrao de
                              Claudius Ceccon.                                                                                                  fortes ventanias
que anunciavam tempestades, troves, relmpagos, as
                                                                                                                                                guas da chuva brincando
de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, ria-
                                                                                                                                                chos. O mundo me
aparecia no assobio do vento, nas nuvens do cu, nas
                                                                                                                                                suas cores, nos seus
movimentos; na cor das folhagens, na forma das
                                                                                                                                                folhas, no cheiro
das flores  das rosas, dos jasmins , no corpo das rvo-
                                                                                                                                                res, na casca dos
frutos; na tonalidade diferente de cores de um mesmo





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                                                                                                                                                fruto em momentos
distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da
                                                                                                                                                manga-espada inchada,
o amarelo esverdeado da mesma manga amadu-
                                                                                                                                                recendo, as pintas
negras da manga mais alm de madura.
                                                                                                                                                Daquele contexto
faziam parte igualmente os animais: os gatos da fam-
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                                                lia, a sua maneira
manhosa de enroscar-se nas pernas da gente, o seu
                                                                                                                                                miado, de splica
ou de raiva; Joli, o velho cachorro negro de meu pai, o
                                                                                                                                                seu mau humor toda
a vez que um dos gatos incautamente do lugar em
                                                                                                                                                que se achava comendo
e que era  "estado de esprito" o de Joli, em tais
                                                                                                                                                momentos, completamente
diferente do de quando quase desportivamen-
                                                                                                                                                te perseguia, acuava
e matava um dos muitos timbus responsveis pelo
                                                                                                                                                sumio de gordas
galinhas de minha av.18


                         96
97
                                17
                                     FREIRE, Paulo. A importncia do ato de ler. So Paulo: Cortez Editora, 2005, p. 12 e 13.   18
                                                                                                                                     Idem, ibidem, p. 12 e 13.
                              A natureza viva do Nordeste acompanhou Paulo por toda a vida. Um outro livro em que
                              ele se volta ao mundo da natureza   sombra desta mangueira. Neste, assim ele lembra
                              as suas rvores de menino:


                                                  As rvores sempre me atraram. As frondes arredondadas,                            O sempre retorno
                                                  a variedade do seu verde, a sombra aconchegante, o cheiro das                         a Recife. Paulo
                                                  flores, os frutos, a ondulao dos galhos, mais intensa ou me-                   Freire conversando
                                                                                                                                           ao fundo de
                                                  nos intensa em funo da resistncia ao vento. As boas vindas
                                                                                                                                       um lixo com o
                                                  que suas sombras sempre do a quem chega, inclusive aos                           educador popular
                                                  passarinhos multicores e catadores, a bichos, pacatos ou no,                      Antonio Denilson
                                                  que nelas repousam.                                                                 Rodrigues Pinto,
                                                                                                                                              em 1996.
                                                  Nascido no Recife, menino de uma gerao que cresceu em quin-
                                                  tais, em ntima relao com rvores, minha memria no podia
                                                  deixar de estar repleta de experincias de sombras, que as gentes
                                                  nascidas nos trpicos cedo incorporam e dele falam como se ti-
                                                  vessem nascido com ele.19

                                                                                                                           Na pgina 24 do mesmo livro, ele volta
a falar das rvores:




Meu primeiro mundo foi o quintal de casa,
    Neste livro Paulo Freire

com suas mangueiras, cajueiros de fronde
    aparece como o homem
        do mundo mas fiel
quase ajoelhando-se no cho sombreado,
       s suas referncias
jaqueiras e barrigudeiras. rvores, cores,
             nordestinas, 
cheiros, frutas que, atraindo passarinhos





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
               sua proposta

vrios, a eles se davam como espao para
           transformadora.

seus cantares.


                                                                                                                           E em uma das suas ltimas declaraes,
ele nos deixou esta pequena e comovente confisso:
PROJETO MEMRIA | 2005





Eu gostaria de ser lembrado como algum

que amou o mundo, as pessoas, os bichos,
                                                                                             A casa onde
as rvores, a terra, a gua, a vida!20
                                                                                             Paulo Freire nasceu,
                                                                                             em Recife.


                         98                                                                                                20
                                                                                                                             Declarao dada em entrevista a Edney
Silvestre, em Nova Iorque, 1997, publicada em Pedagogia da tolern-

99
                              19
                                   FREIRE, Paulo.  sombra desta mangueira. So Paulo: Editora Olho d'gua, 1995, p. 15.   cia, pela Editora UNESP, p. 329, em 2005.
                                         10.
                                                      Andarilho da Utopia
                                                       e Semeador
                                                         da Esperana.

Desrespeitando os fracos,
enganando os incautos,              Eis um ideal de Paulo Freire: educar mulheres e homens, tendo colocado sua




                                                                                                                      PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
ofendendo a vida, explorando os     melhor ateno na das pessoas do povo. Formar crianas, jovens e adultos ofe-
outros, discriminando o ndio,      recendo a eles o que de melhor possa haver no trabalho do educador. Pessoas
o negro, a mulher no estarei
                                    que no estudem somente para conhecerem mais as coisas, mas que todos os
ajudando meus filhos a serem
                                    dias estejam aprendendo para saberem mais sobre si mesmas, sobre a vida e o
srios, justos e amorosos da vida
                                    mundo. Mulheres e homens que se eduquem de fato e no sejam apenas "ins-
e dos outros.
                                    trudos", para partirem do que aprendem e sabem em direo a trs patamares
                                    de transformaes humanizadoras: a de suas vidas pessoais, a das relaes
Pedagogia da indignao, 2000       entre eles e os outros, a do mundo social em que vivem e que constrem com o
                                    seu trabalho e a sua participao.




                                                                                                                    101
                                                                                                                        Em seus ltimos livros ele comenta isso,
ao mesmo tempo em que reclama um profundo
                                                                                                                        valor tico no trabalho do educador, ao lembrar
que, se existem princpios e valores ti-
                                                                                                                        cos universais, eles no devem s ser trazidos
de longe ou dados "de fora para dentro"
                                                                                                                        s pessoas. Ao contrrio, eles constituem
a prpria condio de ns virmos a ser quem
                                                                                                                        somos, tornando-nos mais e mais humanos.



                                                                                                                                 Quando, porm, falo de uma tica
universal do ser humano, es-
                                                                                                                                 tou falando de uma tica enquanto
marca da natureza humana.
                                                                                                                                 Ao faz-lo, estou advertido das
possveis crticas que, infiis ao
                                                                                                                                 meu pensamento, me apontaro como
ingnuo e idealista. Na
                                                                                                                                 verdade falo da tica universal
do ser humano da mesma forma
                                                                                                                                 como falo de sua vocao ontolgica
para o ser mais, como falo
                                                                                                                                 de sua natureza constituindo-se
social e historicamente como
                                                                                                                                 um a priori da histria. A natureza
que a ontologia cuida se ges-
                                                                                                                                 ta socialmente na histria.  uma
natureza em processo de es-
                               Depois de seus primeiros livros, ao mesmo tempo em que as suas idias to inovadoras              tar sendo com algumas conotaes
fundamentais sem as quais
                                                                                                                                 no teria sido possvel reconhecer
a prpria presena humana
                               iam sendo acolhidas com entusiasmo, ele comeou a ser chamado por alguns de seus
                                                                                                                                 no mundo como algo original e singular.21
                               crticos de sonhador "utpico" e "romntico". Claro! Pois como ousar pensar to alto
                               sobre o valor e o destino da pessoa humana e como acreditar que a educao tem a um
                               lugar to essencial na formao de seus praticantes e no ser visto por alguns como um
                               militante realista e revolucionrio e, por outros, como um ingnuo sonhador de utopias
                               irrealizveis?





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                                                                                      Neste livro,
Freire fala das
                                                                                                                                                       virtudes necessrias
aos
                                                                                                                                                      professores
e professoras
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                                                                                           para o
ato de educar.

Mais de 650 mil
                                     Reunio no                                                                                                         exemplares
publicados.
                                 Instituto Paulo
                                   Freire com a
                                   participao
                                      de Moacir
                                    Gadotti, seu
                               Diretor, e demais
                                 integrantes da
                                       entidade.
                         102                                                                                             FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes
necessrios  prtica educativa. So Paulo: Editora Paz e Terra,
                                                                                                                        21
103
                                                                                                                        2005, p. 18.
                               Todos ns, seres humanos, existimos na histria e como seres histricos. Como pes-         Somos seres que em boa medida nos educamos
para o trabalho. Mas, antes e depois
                               soas de uma sociedade e como participantes de sua cultura, somos tambm sujeitos da        dele, somos pessoas destinadas ao saber,
ao conhecimento. Assim, tanto para o exerccio
                               histria, como Paulo Freire tantas vezes costumava repetir. E se assim , ento devemos    consciente e eficiente de nossos ofcios
quanto para a experincia de uma vida em busca
                               pensar e agir como atores e agentes de uma histria humana que podemos no apenas          de todas as formas e dimenses do conhecimento,
ns somos pessoas em quem a apren-
                               viver e seguir, mas construir e transformar.                                               dizagem deveria ser uma vivncia de todos
os dias, ao longo de toda a vida.
                               Paulo Freire sempre foi contrrio  idia de que ns somos submetidos a um destino         O professor Paulo no  reconhecido no
Brasil e em todo mundo por ter sido o criador
                               situado fora de ns e de nossas vidas e da vida coletiva de nossas sociedades. Nada mais   de um mtodo de trabalho pedaggico. Ele
no segue sendo at hoje to lido e debatido
                               distante de seu pensamento do que a crena de que a Histria acabou, como se algo          apenas por causa de suas idias sobre a
pedagogia. Aqueles que s conhecem a super-
                               acontecesse independente de ns, de quem somos e que comande a ordem e as mudan-           fcie de sua obra s recordam o "Mtodo
Paulo Freire" para a alfabetizao de jovens e
                               as do mundo em que vivemos.                                                               adultos. Mas os que o lem mais a fundo
sabem que ele construiu uma inovadora teoria
                                                                                                                          da aprendizagem e do conhecimento.
                                                                                                                          Seu projeto original de educao estava
destinado s pessoas mais pobres da sociedade
                                                                                                                          brasileira. Nunca  demais repetir que
era com o povo, a seu servio e em seu nome, que
                                                                                                                          ele viveu sua vida de militante de causas
populares e de educador.
                                                                                                                          As etapas do "Sistema Paulo Freire" eram
estas:



                                                                                                                                                1. alfabetizao
infantil;
                                                                                                                                                2. alfabetizao
de jovens e adultos;
                                                                                                                                                3. ciclo primrio;
                                                                                                                                                4. extenso cultural,
por meio de um
                                                                                                                                                   Instituto de Cincias
do Homem;
                                                                                                                                                5. Centro de Estudos
Internacionais.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                                                                 Escrito de Paulo Freire
                                                                                 sobre o assassinato do                   E todas essas etapas constituiriam a base
de uma Universidade Popular. Tambm no
                                                                                 ndio Galdino, queimado                   s a criao de um sistema de educao
o que tornou Paulo Freire um expoente do
                                                                                 nas ruas de Braslia,
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                                 onde ele expressa sua
                                                                                                                          pensamento humanista e pedaggico. O que
o fez ser to importante e to original foi
                                                                                 indignao pela ausncia                 a sua proposta de uma educao crtica.
Uma educao que ousou ir bem alm do que
                                                                                 de tica no pas.                        inovavam, em sua poca, os educadores da
chamada "escola nova".
                               Paulo Freire defendeu a idia de que a pessoa humana  um ser inacabado, sempre            E foi em nome da busca contnua de uma
educao libertadora que Paulo Freire nos lem-
                               aperfeiovel e, portanto, capaz de aprender mais e de acrescentar ao que j sabe e        bra que ela no  uma "coisa". A educao
nossa e de nossos filhos no  mercadoria,
                               pensa algo novo e inesperado. No h em seu pensamento limites para o conhecimento         mas um direito essencial da pessoa humana.
No  uma tcnica pura, mesmo em um
                               humano e, menos ainda, para a conscincia de quem aprende e conhece. Ele foi um dos        mundo em que tudo parece depender de tecnologias.
No  uma experincia parada no
                               principais difusores da idia de que, cada dia mais, estaremos destinados a viver em um    tempo e a ser mantida e preservada em seu
imobilismo ao longo dos anos e das eras.
                               tempo em que o saber, a conscincia e o dilogo havero de tornar-se os eixos do centro    A educao  uma das dimenses da cultura.
 obra de mentes e de mos humanas,
                         104
105
                               da prpria experincia humana.                                                             como tantas outras com que convivemos a
cada dia de nossas vidas. E como tudo o mais
                                                                                                                            associar essas duas palavras junto com
uma outra: "utopia". Uma bela palavra grega que
                                                                                                                            tinha para ele o sentido de um lugar
de vida livre e feliz, sempre possvel de chegar a
                                                                                                                            existir, em lugar de um mundo desumano
e arbitrrio.
                                                                                                                            A utopia pedaggica de Paulo Freire surge
por meio de uma generosa e severa crtica
                                                                                                                            aos sistemas de ensinar-e-aprender impregnados
de uma viso utilitria e instrumental.
                                                                                                                            Uma capacitao que informa sem formar,
a que ele deu o nome de "educao bancria".
                                                                                                                            Em nome de uma educao libertadora,
o exato oposto da "bancria",  que Paulo e os
                                                                                                                            que procuram ser seus re-criadores assumem
o compromisso de vida e de trabalho a
                                                                                                                            servio dos povos do Brasil, educando-os
e formando-os para que eles aprendam a ser
                                                                                                                            os criadores de suas vidas livres, de
suas culturas emancipadas e de suas sociedades
                                                                                                                            justas e felizes.




                                                                                                                                Paulo Freire
                                                                                                                              gostava muito
                                                                                                                              de estar perto
                                                                                                                               das crianas,
                                                                                                                               dos homens e
                                                                                                                             mulheres pelos
                                                                                                                                e com quais
                                                                                                                                 tanto lutou.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                               que ns criamos para viver e conviver, a educao somente liberta e humaniza quando
                               ela  conscientizadora e contribui para o processo de desalienao  razo pela qual ela
                               deve ser sempre (re)criada. A educao que nos faz ser quem somos  uma criao nos-
                               sa. E, na medida em que vivemos a experincia dialgica e dialtica do processo cultural
PROJETO MEMRIA | 2005




                               de nos educarmos, seja como educadores, seja como educandos,  que so geradas as
                               condies para a nossa mudana e as transformaes educacionais.
                               E, se a idia de que a educao pode e deve ser sempre atualizada e mesmo transfor-
                               mada para melhor  antiga, ela tem um peso ainda maior agora, em um tempo como o
                               nosso, num momento da trajetria humana em que tudo se acelera tanto em todos os
                               planos da vida e do conhecimento. Vivemos hoje num tempo em que tudo se transforma
                               cada vez mais depressa.
                               "Indito vivel" era uma das expresses favoritas de Paulo Freire. E o que vem a ser o
                         106   "indito vivel"? Indito vivel  a coragem de colocar-se frente ao velho e ao que parece
107
                               impossvel e antever a a possibilidade de criao do novo. Por isso, Paulo costumava
                                          11.
                                                         A Herana de
                                                                     Paulo Freire.

Mulheres e homens, nos tornamos
mais do que puros aparatos a




                                                                                                                       PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
serem treinados ou adestrados.      Paulo Freire permance vivo no seu legado de profunda trnsformao e ao re-
Nos tornamos seres da opo, da     novadora do processo de alfabetizao e nos sistemas de educao popular. Sua
deciso, da interveno no mundo.   obra, sua vida, ficaro para sempre como marco de esperana e sonhos possveis
Seres da responsabilidade.          para as pessoas oprimidas de todo o mundo. Considerado o maior educador do
                                    sculo XX, Paulo Freire  a expresso do compromisso com a justia e a huma-
Pedagogia da indignao, 2000       nizao. Legado que continua vivo no trabalho de pessoas, entidades, ONGs, em
                                    eventos e aes de incluso social, espalhadas e executadas em todo o mundo.




                                                                                                                     109
                                                                                                                        Diversos prmios
                                                                                                                   levam seu nome, alm
                                                                                                                     de aes educativas,
                                                       As Pedagogias da                                               como poesias feitas
                                                       Indignao e dos                                                   por crianas de
                                                       Sonhos Possveis so                                        Escolas Municipais da
                                                       coletneas de reflexes                                       cidade de So Paulo.
                                                       e dilogos de Paulo
                                                       Freire organizados por
                                                       Ana Maria Arajo Freire,
                                                       aps a morte do seu
                                                       marido, cujos ttulos
                                                       foram tambm por
                                                       ela nomeados.




                                Seminrios, fruns e
                               eventos educacionais
                                      no Brasil e no
                                  mundo discutem a                                                                               Paulo Freire sob o
                               concepo e prticas                                                                         olhar de cerca de 2000
                                         freireanas.                                                                     pesquisadores, sua viva,
                                                                                                                           amigos e educadores de
                                                                                                                             todo o mundo. A obra
                                                                                                                              mais completa sobre
                                                                                                                         Freire publicada at hoje.



                                                                                            UNIFREIRE E COMUNIDADE FREIREANA NO MUNDO
                                                                                                  Instituies que levam o nome de Paulo Freire




                                                                                                                                                        PAULO FREIRE
| EDUCAR PARA TRANSFORMAR
PROJETO MEMRIA | 2005




                                                                   Paulo Freire e o amigo
                                                                   Moacir Gadotti,
                                                                   tambm um dos seus
                                                                   principais bigrafos,
                                                                   alm de Diretor Geral                                            A Comunidade
                                                                   do Instituto Paulo                                             Freireana rene
                                                                   Freire, entidade                                         instituies e pessoas
                                                                   referncia em                                             em mais de 90 pases
                         110                                       informao, consulta                                   de todos os continentes,    111
                                                                   e difuso da vida e da                                       todos trabalhando
                                                                   obra do educador.                                            por uma educao
                                                                                                                                       libertadora.
                                   12.
                                            O Que Ler para Conhecer
                                       Mais a Vida e as Idias
                                                       de Paulo Freire

                               Paulo Freire escreveu muito e escreveu a vida inteira. Alguns de seus livros




                                                                                                                  PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                               contm as suas idias mais amplas e mais profundas a respeito da pessoa hu-
A minha abertura ao            mana, da vida social e da educao. Outros so mais especficos e se dirigem a
querer bem significa a         algum aspecto mais particular de sua pedagogia. Outros so livros originados
minha disponibilidade         de dilogos com outros educadores. Finalmente existem ainda os seus ltimos
alegria de viver.              livros, escritos por ele mesmo em seus ltimos anos entre ns, ou j organiza-
                               dos por Nita Freire, contendo cartas, mensagens, ensaios, palestras e outros
Pedagogia da autonomia, 1997   escritos que de forma alguma poderiam deixar de ser publicados.




                                                                                                                113
                               Entre os primeiros, dois livros devem ser lembrados: A educao como prtica da            suas idias e faz uma sntese de seu pensamento,
ao longo das "exigncias do ensinar",
                               liberdade, publicado em 1967, pela Editora Paz e Terra, do Rio de Janeiro, e aquele que    em que se desdobram os captulos do livro.
Foi publicado na Coleo Leitura, da Editora
                               veio a ser um dos seus livros mais conhecidos em todo o mundo: Pedagogia do opri-          Paz e Terra, So Paulo, com a primeira
edio em 1996.
                               mido, publicado pela mesma editora, em 1974. A introduo deste livro traz a indicao:    Pedagogia da indignao (2000), Pedagogia
dos sonhos possveis (2001) e Pedagogia
                               "Paulo Freire  Santiago (do Chile), outono de 1969".                                      da tolerncia (2005) completam (mas no
esgotam) a relao da obra de Paulo Freire.
                               Trs outros livros dos "primeiros tempos" devem ser tambm lembrados: Extenso ou          Estas obras foram organizadas por Ana Maria
Arajo Freire, publicadas pela Editora
                               comunicao? (Paz e Terra, 1971), Ao cultural para a liberdade e outros escritos         UNESP, de So Paulo, na Srie Paulo Freire.
                               (Paz e Terra, 1976) e Educao e mudana (Paz e Terra, 1981).                              Existe uma grande bibliografia que se prope
a estudar a obra de Paulo Freire, tanto na
                               Entre os livros mais "especializados", esto: Cartas  Guin-Bissau  Registros de         lngua nacional como em diversas outras
lnguas do mundo todo. Lembremos apenas
                               uma experincia em processo (Paz e Terra, 1977) e A importncia do ato de ler  Em         alguns delas publicadas no Brasil.
                               trs artigos que se completam (Cortez/Autores Associados, 1982).                           Paulo Freire  uma biobibliografia, publicado
pela Editora Cortez, em parceria com
                               Entre os livros de dilogos e entrevistas ao vivo, vale a pena conhecer: Paulo Freire ao   a UNESCO e o Instituto Paulo Freire, em
1996. Contm uma relao to completa quan-
                               vivo, em colaborao com Aldo Vannucchi e Wlademir dos Santos (Loyola, 1983); Essa         to possvel de boa parte do que se editou
de e sobre Paulo Freire. Entre outros livros
                               escola chamada vida, em co-autoria com Frei Betto (tica, 1985); Por uma pedago-           mais acessveis, podem ser procurados com
proveito os seguintes: Convite  leitura de
                               gia da pergunta, em co-autoria com Antonio Faundez (Paz e Terra, 1985); Pedagogia:         Paulo Freire, de Moacir Gadotti, publicado
pela Editora Scipione, de So Paulo, em 1989;
                               dilogo e conflito, em co-autoria com Moacir Gadotti e Srgio Guimares (Cortez,           Paulo Freire para educadores, de Vera Barreto,
publicado pela editora Arte & Cincia,
                               1986); Sobre educao (dilogos), com Srgio Guimares (Vol. 1, 1982, Vol. 2, 1984,        em 1998; e A pedagogia da libertao em
Paulo Freire, com ensaios de 40 pensadores
                               ambos pela Paz e Terra); Medo e ousadia  O cotidiano do professor, em co-autoria          freireanos do Brasil e do mundo, organizado
por Ana Maria Arajo Freire (Editora UNESP,
                               com Ira Schor (Paz e Terra, 1987); Que Fazer: teoria e prtica em educao, dilogo        1999  Srie Paulo Freire).
                               com Adriano Nogueira (Vozes, 1988); Aprendendo com a prpria histria, dilogos            Osmar Fvero coordenou e publicou pela
Editora Graal, do Rio de Janeiro, em 1983,
                               com Srgio Guimares (Vol 1, 1987, Vol. 2, 2000, ambos da Paz e Terra); Alfabetiza-        alguns dos primeiros escritos de Paulo
e sua equipe nordestina, no livro Cultura popu-
                               o: Leitura do mundo leitura da palavra, com Donaldo Macedo (Paz e Terra, 1990);          lar e educao popular: memria dos anos
60 (Editora Graal-Paz e Terra, 1993). Outro
                               O caminho se faz caminhando: conversas sobre educao e mudana social, com                trabalho importante sobre Freire  o livro
Poltica e Educao Popular, de Celso de
                               Myles Horton (Vozes, 2002); e A frica ensinando a gente: Angola, Guin-Bissau,            Rui Beisiegel (tica, 1992).





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                               So Tom e Prncipe, com Srgio Guimares (Paz e Terra, 2003).                             A Editora da UNESP publicou ainda, em 2005,
um livro sobre a vida de Paulo Freire diri-
                               Entre os seus livros da plena maturidade e dos tempos do retorno ao Brasil, sugerimos      gido a crianas, jovens e professores:
Paulo Freire  o menino que lia o mundo, escrito
                               a leitura de Pedagogia da esperana  Um reencontro com a pedagogia do oprimi-             por Carlos Rodrigues Brando, com a participao
de Ana Maria Arajo Freire. Ele faz
                               do (Paz e Terra, 1992), com notas de Ana Maria Arajo Freire; A educao na cidade,        parte da Coleo Paulo Freire, por ela
dirigida.
PROJETO MEMRIA | 2005




                               dilogos com vrios educadores, (Cortez, 1991); Poltica e educao (Cortez, 1993);        O Instituto Paulo Freire publica estudos
sobre Paulo Freire na Coleo Freireana,
                               Professora sim, tia no  Cartas a quem ousa ensinar (Olho d'gua, 1993);  som-           da Editora Cortez, de So Paulo.
                               bra desta mangueira, com notas de Ana Maria Arajo Freire (Olho d'gua, 1995);             Quero lembrar mais dois livros, ambos de
Nita Freire. Um, de 1998, um tocante depoimento
                               Cartas a Cristina  Reflexes sobre minha vida e minha prxis, certamente o livro          sobre a ltima dcada de vida de Paulo
Freire vivida com ela, em Nita e Paulo  crnicas
                               mais pessoal e autobiogrfico de Paulo Freire (Paz e Terra, 1994) e com uma 2 edio      de amor, publicado pela Editora Olho d'gua,
em 1998. O outro  a extensa biografia de
                               com as notas revistas de Ana Maria Arajo Freire (UNESP, 2003). Completa esta rela-        seu marido que vai ser lanada neste ano
de 2005, pela Editora Villa das Letras, em
                               o o Pedagogia da autonomia, publicado pouco antes da morte de Paulo Freire. Este         parceria com a Fundao Banco do Brasil,
por meio do Instituto VEREDA, intitulado
                                um pequeno-grande livro indispensvel, em que o professor Paulo retoma todas as          Paulo Freire: uma histria de vida.
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Cronologia Bsica
                               1921  Paulo Freire nasce em Recife, no dia 19 de setembro.                              1975 / 1970  Transfere-se para Genebra,
Sua, para trabalhar no Conselho Mundial
                               1927  Entra, j alfabetizado, para a escolinha particular da professora                         das Igrejas, passa a "andarilhar"
pelos cinco continentes.
                                      Eunice Vasconcelos.                                                               1971  Funda, com outros exilados, o Instituto
de Ao Cultural (IDAC), em
                               1931  Mudana para Jaboato.                                                                    Genebra; dedica-se de modo especial
ao trabalho de educao em alguns
                               1934  Morte do pai quando Paulo tinha 13 anos.                                                  pases africanos.
                               1937 a 1942  Cursa o Ensino Secundrio no Colgio Osvaldo Cruz, do Recife, onde         1979  Obtm seu primeiro passaporte e visita
So Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
                                      teve seu primeiro emprego, tornando-se, em 1941, professor de lngua              1980  Retorna ao Brasil; leciona na PUC/SP
e na Unicamp.
                                      portuguesa do mesmo.                                                              1981  Participa da fundao do Vereda 
Centro de Estudos em Educao 
                               1943  Ingressa na Faculdade de Direito do Recife.                                               em So Paulo.
                               1944  Casa-se com Elza Maia Costa de Oliveira.                                          1982  Publica A importncia do ato de ler
em trs artigos que se completam, livro
                               1947  Forma-se Bacharel em Direito.                                                            que mereceu, em julho de 1990, o "Diploma
de Mrito Internacional", concedido
                               1947  Assume a Diretoria da Diviso de Educao e Cultura, do SESI-Pernambuco.                 pela "International Reading Assocition",
na Sucia.
                               1952  Nomeado Professor Catedrtico da Faculdade de Belas Artes, da                            Deste ano at 1992, escreve os "livros
falados", isto , livros nos quais,
                                      Universidade do Recife.                                                                  estimulado por outros educadores,
narrava a sua vida e explicitava as
                               1954  Foi nomeado Diretor Superintendente do Departamento Regional de                          suas reflexes.
                                      Pernambuco do SESI-PE, cargo que ocupou at outubro de 1956.                      1986  Recebe o Prmio UNESCO da Educao
para a Paz. No dia 24 de outubro
                               1960  Defende Tese e obtm o ttulo de Doutor em Filosofia e Histria da Educao.              morre sua primeira esposa, Elza Maia
Costa Freire.
                               1961  Foi-lhe conferido o ttulo de Livre Docente da Faculdade de Belas Artes. Tendo    1987  Passa a integrar o jri internacional
da UNESCO, que escolhe e premia as
                                      perdido o cargo de docente desta Escola, foi nomeado Professor Assistente                 melhores experincias de alfabetizao
do mundo.
                                      de Ensino Superior, de Filosofia, na Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras,   1988  No dia 27 de maro, casa-se em cerimnia
religiosa, no Recife, com
                                      da Universidade do Recife.                                                                Ana Maria Arajo Hasche e, em 19
de agosto, em So Paulo, em cerimnia
                               1962  Cria e  o primeiro Diretor do Servio de Extenso Cultural, da                           civil, quando ela passa a assinar
Freire.





PAULO FREIRE | EDUCAR PARA TRANSFORMAR
                                      Universidade do Recife.                                                           1989  Assume o cargo de Secretrio de Educao
da cidade de So Paulo.
                               1963  Realiza a Experincia de Alfabetizao de Angicos/RN. Cria as bases do            1991  Afasta-se da Secretaria Municipal
de Educao de So Paulo para escrever
                                      Programa Nacional de Alfabetizao, do Governo Joo Goulart.                              livros. Retorna a lecionar na PUC/SP.
Demite-se da UNICAMP.
                               1964  Golpe Militar extingue o Programa Nacional de Alfabetizao.                              Participa da criao do Instituto
Paulo Freire.
PROJETO MEMRIA | 2005




                                      Priso no Recife.                                                                 1988/1997  Volta depois de 10 anos a escrever
livros autorais: Pedagogia da
                                      Asilo na Embaixada da Bolvia, no Rio de Janeiro.                                         Esperana, Cartas  Cristina: reflexes
sobre a minha vida e minha prxis,
                                      Em setembro parte para a Bolvia.                                                         Professora sim, tia no: cartas a
quem ousa ensinar, Poltica e educao,
                                      Em novembro segue para o Chile.                                                            sombra desta mangueira e Pedagogia
da autonomia, alm de outros com
                               1965  Publica o livro Educao como prtica da liberdade.                                       diversos educadores; e inmeros artigos
e conferncias.
                               1967/1968  Escreve no Chile o livro Pedagogia do oprimido.                              1997  Faleceu no Hospital Albert Einstein,
em So Paulo, no dia 2 de maio,
                               1969  Muda-se para Cambridge, Massachussetts, USA.                                              vtima de um infarto agudo do miocrdio.
Deixou viva e 5 filhos.


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